Nº 006

EDITORIAL

A revista planejou publicar uma matéria sobre o Carnaval. No entanto nas primeiras buscas percebeu-se que não era uma tarefa fácil, ao menos quanto a fotografias de sua origem. Outra dificuldade a ser enfrentada foi a limitação do local (Rio? Salvador? São Paulo? Recife?)e a década (20?30?40?50?). Projeto adiado então mas não abandonado.

Mas esta edição está a contendo com destaque para o belo e inusitado trabalho de Paulo Vitale retratando chefs de cozinha. E o que dizer da trajetória impressionante de Claudia Andujar e sua dedicação por décadas a registrar deportados nordestinos, gays e prostitutas, terminando seus dias cobrindo  ritos e costumes yanomamis.

Boa leitura!

VÁ E VEJA

COMO “O BRUTALISTA” REVITALIZOU UM TIPO DE FILMAGEM ESQUECIDO DESDE OS ANOS 1960

Avô do IMAX e queridinho de Hitchcock, o VistaVision durou pouco tempo por ser muito caro. Saiba como o método foi usado no filme indicado ao Oscar – e por que ele fez toda a diferença.

O Brutalista é um filme grandioso: são 3 horas e 35 minutos (esse tempo inclui um intervalo de 15 minutos que divide a história ao meio), trilha sonora épica e uma narrativa que tem como centro a construção de um prédio gigante, projetado pelo sobrevivente do Holocausto e arquiteto brutalista fictício László Tóth.

Para realizar sua visão grandiloquente, o diretor norte-americano Brady Corbet, de 36 anos, demorou sete anos para fazer o filme – e ressuscitou uma técnica que não era usada para gravar um longa-metragem completo desde 1961.

O novo filme de Corbet foi filmado em VistaVision, uma técnica de filmagem analógica criada em 1954 por engenheiros da Paramount Pictures e praticamente aposentada menos de dez anos depois. O método ainda foi usado para fazer algumas poucas cenas de efeitos especiais de Star Wars, em 1977, mas O Brutalista é o primeiro longa-metragem a ser gravado inteiramente com esse processo fotográfico desde o início dos anos 1960.

Agora, o VistaVision está voltando de verdade: o próximo filme de um dos principais diretores de cinema dos Estados Unidos, Paul Thomas Anderson (Magnólia, Boogie Nights, Sangue Negro) foi gravado inteiramente com essa técnica. A nova obra de Anderson, que é estrelada por Leonardo DiCaprio, tem lançamento previsto para agosto de 2025.

Mas por que O Brutalista foi feito com essa técnica analógica e anacrônica? É só preciosismo de Corbet ou o método faz sentido para o filme?

VistaVision foi uma técnica que surgiu em resposta ao CinemaScope, processo de filmagem desenvolvido pela 20th Century Fox (hoje 20th Century Studios) para fazer filmes widescreen (com proporção 16:9, mais amplo na horizontal). Mais de 80 filmes usaram VistaVision durante o curto período em que a técnica foi usada, a maioria deles da própria Paramount.

Entre as obras mais famosas filmadas em VistaVision estão a versão cinematográfica dos Dez Mandamentos, dirigida por Cecil B. DeMille em 1956, a comédia musical romântica Funny Face, dirigida por Stanley Donen e protagonizada por Audrey Hepburn, e Um Corpo que Cai e Intriga Internacional, clássicos de Alfred Hitchcock – VistaVision, aliás, era o formato de filmagem favorito dele.

Depois que a Paramount parou de usar o técnica por causa do alto custo de produção – um longa-metragem em VistaVision precisava do dobro de rolo de filme –, ela vendeu as câmeras modificadas. Por isso , alguns filmes clássicos do cinema japonês, como In the Realm of the Senses de 1976, acabaram usando a técnica de forma extraoficial. Depois disso, o método seria usado para efeitos especiais em blockbusters e, mais tarde, inspiraria a criação do IMAX.

Hoje, a maioria dos filmes é gravada usando câmeras digitais, sem passar pelos processos analógicos – e custosos – que definiram a produção cinematográfica até o começo dos anos 2000 (Star Wars: Episódio II – Ataque dos Clones, de 2002, foi o primeiro filme a ser gravado inteiramente com câmeras digitais). Mesmo assim, alguns diretores ainda preferem trabalhar com filme analógico, que tem uma beleza própria bem difícil de emular com câmeras digitais.

Apesar do orçamento apertado de O Brutalista (US$ 9,6 milhões, nem 10% do que normalmente custa um filme de estúdios grandes de Hollywood), Corbet fez questão de usar câmeras analógicas. Para isso, ele chamou o diretor de fotografia Lol Crawley, que também cuidou da filmagem de seus outros dois filmes.

De acordo com Crawley em um vídeo da revista Variety, ao fotografar arquitetura é preciso buscar o mínimo de distorção possível. Para isso, lentes retilíneas são o ideal. Por isso, Corbet pensou em usar VistaVision, que usa filmes de 35mm, mas, ao invés de posicioná-los verticalmente – como na maioria das câmeras de cinema –, dispõe a película de forma horizontal, e assim consegue mais espaço no filme para a imagem. Os filmes gravados dessa forma tinham tela ampla e resolução excelente.

O outro jeito de conseguir tela ampla e alta resolução seria usar lentes de ângulo aberto, mas aí as linhas retas da arquitetura em estilo brutalista (daí o nome do filme) iriam para o espaço. “Quanto mais aberto o ângulo, mais distorcidas vão ficando as bordas e linhas da imagem”, explicou o fotógrafo Gustavo Oliveira à Super. É o que acontece, por exemplo, quando usamos a câmera frontal do celular para fazer uma selfie com a lente 0,5 e a testa da pessoa fica gigante.

Já que o rolo de filme do VistaVision tem uma área maior, o espectador pode aproveitar um campo de visão mais amplo que o normal. Assim, é possível enxergar um prédio gigante de uma tacada só, sem distorção de imagem. Dá para ter uma noção do resultado de tudo isso no trailer:

A primeira vez que Crawley usou o formato foi em Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma (1999), quando ele era um assistente técnico de filmagem. A câmera era da Industrial Light & Magic (ILM), a empresa de efeitos especiais fundada por George Lucas nos anos 1970 que continuou usando o VistaVision para algumas cenas específicas depois que as câmeras adaptadas para o formato foram descontinuadas.

Tudo isso é muito legal, mas será que faz diferença, mesmo? No início de fevereiro, assisti a O Brutalista em uma sessão antecipada para a imprensa e posso garantir que o VistaVision é impressionante.

As cenas com pouca iluminação cercam o espectador, e a escala do filme é irresistível. Vale destacar uma passagem por uma mina de mármore na Itália, em que os registros das montanhas e cavernas lapidadas pelos trabalhadores são de tirar o fôlego.

O espectador consegue perceber a textura analógica, mas a alta resolução do VistaVision deixa as imagens pouco granuladas. Para mim, as 3 horas e 35 minutos passaram voando: fui completamente cativado pelas imagens na tela, mesmo nos momentos em que a história não fazia jus à fotografia.

Fica a dica: vale a pena assistir O Brutalista na sala de cinema com a maior tela disponível na sua cidade. O filme chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (20).

Leia mais em: https://super.abril.com.br/cultura/como-o-brutalista-revitalizou-um-tipo-de-filmagem-esquecido-desde-os-anos-1960

HISTOFOTO

Claudia Andujar (12/06/1931): “Deportados nordestinos’, gays e prostitutas: a fotógrafa pioneira que fugiu do nazismo e retratou as contradições brasileiras”.

Claudia Andujar ganhou reconhecimento internacional por seus trabalhos com indígenas; entretanto, há uma parte menos conhecida da sua obra, composta por fotografias jornalísticas e experimentais retratando a vida nas cidades brasileiras e aqueles á margem da sociedade.

Claudia Andujar tinha 13 anos quando se aproximou de Gyuri pela última vez.

Todos os dias, no mesmo horário, o procurava pelas ruas da Hungria, ansiosa para avistá-lo — quase sempre à distância.

Em junho de 1944, o garoto a convidou para uma volta no parque.

“Andamos emocionados, sem falar, olhando-nos furtivamente”, lembra a fotógrafa na introdução de seu livroMarcados (Cosac Naify).

“Eu sabia que algo importante estava acontecendo. Era o nascimento do amor.”

Com uma estrela de Davi pregada no peito, Gyuri lançava advertências sobre o perigo ao redor — Andujar também morreria se os nazistas a flagrassem na companhia de um judeu.

Mas ela não recuou: “No fim do passeio, recebi um beijo tímido e silencioso, que apenas tocou minha boca. Lembro-me de ter ficado com os lábios ardendo por horas seguidas”.

Dali a algumas semanas, o pai de Andujar seria executado em Auschwitz — e Gyuri também.

Sob a mira da Gestapo, a garota fugiu em um trem de gado com destino à Suíça, terra natal de sua mãe.

“Esta é a realidade que ela habita até hoje”, afirma Eduardo Brandão, curador da exposição Claudia Andujar – Minha Vida em Dois Mundos, que a Pinacoteca do Ceará promove até 9 de março de 2025.

“Ela é muito desconfiada e, ao mesmo tempo, muito confiante. A vida deu a ela essa capacidade de se relacionar com as diferenças, inclusive as mais perigosas”.

Andujar obteve reconhecimento internacional por sua luta em defesa das populações indígenas, um ativismo conjugado com as centenas de fotografias que fez do povo yanomami, que viriam a se tornar seu trabalho mais célebre.

As obras expostas em Fortaleza, contudo, desvelam facetas menos célebres de seu trabalho.

São duzentas fotografias de cunho jornalístico e experimental, retratando não somente ritos e costumes yanomamis, mas também o Brasil das pequenas e grandes cidades.

“Ela se guia pelo desejo de um mundo mais justo, em uma busca que atravessa os mais diversos lugares — o preto e branco e a cor; o analógico e o digital; a floresta e a metrópole; a Europa e a América”, afirma Brandão.

Trata-se de um périplo comum a outras duas fotógrafas — a inglesa Maureen Bisilliat e a alemã Lux Vidal, que dividem com Andujar a exposição Trajetórias Cruzadas, em cartaz até 23 de fevereiro de 2025 no Centro MariAntonia, da Universidade de São Paulo (USP).

“As três nascem no início dos anos 1930, em território europeu, e viajam pelo mundo todo”, diz a curadora Sylvia Caiuby Novaes.

“São poliglotas, nunca perderam o sotaque, mas não possuem exatamente uma língua materna. Elas vivenciam a Segunda Guerra Mundial, e então se mudam para os Estados Unidos.”

A convite de um tio paterno, Andujar chegou a Nova York em 1946, após uma temporada de dois anos na Suíça.

Até aquele momento, atendia pelo nome de batismo: Claudine Haas.

Mas, deprimida com as memórias do Holocausto, ela alterou a própria identidade.

Na adolescência, adotou o nome Claudia. No início da vida adulta, casou-se com um refugiado espanhol, Julio Andujar, cujo sobrenome manteve após o divórcio, para esconder as origens judaicas.

Em 1950, ela começou a pintar, sob forte influência do expressionismo abstrato.

Matriculou-se no curso de artes da universidade Hunter College, visitou inúmeros museus e trabalhou como guia na Organização das Nações Unidas (ONU) — mas não se integrou bem aos Estados Unidos.

“Eu gostava de passar horas no campo, nos parques, no cemitério com árvores, porque eram lugares quietos e solitários”, ela escreveria no jornal Ex- em setembro de 1975.

“Passava horas em igrejas vazias, conversando sozinha. Me sentia só, na grande metrópole.”

Em junho de 1955, ao descobrir que a mãe se mudara para São Paulo junto a um namorado romeno, fez as malas e desembarcou na cidade. Aos 93 anos de idade, ela segue morando na capital paulista.

Ainda sem saber português, Andujar percorreria todo o território brasileiro.

“Eu queria entender, conhecer o Brasil“, disse ela em entrevista ao Instituto Moreira Salles.

“Aqui, me sentia em casa. Peguei uma máquina e, quando podia, eu fotografava. […] Acho que, com esse trabalho, esse empenho, eu estava procurando raízes.”

Uma jovem descansa na cozinha de uma mansão paulistana; fotógrafa retratou diversas famílias brasileiras, das mais ricas às mais pobres. (Claudia Andujar/Galeria Vermelho)

Entre 1956 e 1958, aconselhada pelo antropólogo Darcy Ribeiro, a artista fez uma série de viagens à Ilha do Bananal, hoje pertencente ao Tocantins.

Naquele que seria seu primeiro projeto de fôlego, retratou com uma câmera de médio formato os karajás, povo indígena assentado nas margens do rio Araguaia.

Ao oferecer o material para a revista O Cruzeiro, foi hostilizada pelos editores. Eles disseram, segundo relato dela: “Mulher aqui não tem lugar. Mulher não pode ser fotógrafa”.

Em outubro de 1960, porém, o ensaio ganhou as páginas da revista americana Life.

Nos Estados Unidos, a jovem era admirada por Edward Steichen, diretor do Museu de Arte Moderna de Nova York e um dos mais importantes nomes da fotografia no século 20.

Já nas galerias brasileiras, a fotografia não tinha espaço, levando seus profissionais a buscarem refúgio na grande imprensa.

Entretanto, o fotojornalismo de Andujar não se limitava à mera documentação cotidiana, afirma a crítica de arte Thais Rivitti.

“A obra dela traz uma série de ensinamentos da pintura”, afirma Rivitti à BBC News Brasil.

“Sua forma de usar luzes e texturas para conferir volume aos corpos, de modificar imagens no ateliê, com sobreposições, colagens e outras técnicas manuais, nos mostra alguém muito atento ao legado das vanguardas.”

Novaes também destaca que a pintura trouxe para Andujar “um senso de observação”.

“Uma observação cuidadosa e profunda, sucedida por uma crítica daquilo que foi observado. Por isso que suas fotografias são tão expressivas”, diz a curadora.

UMA MULHER CALADA

Vista aérea da cidade de São Paulo, fotografada com filme infravermelho. (Claudia Andujar/Galeria Vermelho)

Semelhante perspectiva orienta o ensaio Famílias Brasileiras, produzido ao longo de dois anos.

O interesse pela realidade mais prosaica levaria a fotógrafa a mergulhar na vida íntima de quatro clãs, em contextos distintos.

Em março de 1962, Andujar chegou ao Recôncavo Baiano, hospedando-se na Fazenda Engenho d’Água, datada do século 17.

O cenário próspero, impulsionado pelo cultivo de cacau, emoldura o descanso da família branca, o ofício dos trabalhadores negros e um conjunto de estruturas físicas oriundas do passado escravista — a casa grande e a senzala permaneciam intactas.

Em maio do ano seguinte, a fotógrafa se dirigiu ao bairro do Jabaquara, na Zona Sul paulistana, rumo à mansão de 22 cômodos onde o delegado João Ranali, chefe do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), vivia com esposa, filhos e inúmeros bens de consumo.

Na cozinha, a família é rodeada por eletrodomésticos, refrigerantes e louças de vidro; na sala, três homens assistem a um programa de TV, repousados em móveis de design moderno.

No banheiro, um rapaz lê gibis com semblante tranquilo; não muito longe dali, debruçada sobre a mesa da copa, uma senhora folheia o jornal.

Seis meses depois, Andujar aportou em um universo antagônico — uma vila caiçara em Ubatuba, litoral norte de São Paulo.

As imagens revelam a proa de um barco, ondas quebrando na superfície da água e montanhas que se erguem contra o céu.

O horizonte é vasto, mas o pescador e sua família permanecem boa parte do tempo confinados em uma casinha rústica, entre cordas, redes e panelas amassadas — sempre descalços.

A escuridão prevalece na casa rústica de um pescador caiçara. (Claudia Andujar/Galeria Vermelho)

A esposa, de cabelo trançado e vestido de chita, maneja a chaleira sobre um coador de pano, enquanto nuvens de vapor se elevam ao redor.

O homem, com o rosto oculto, ergue um bebê em direção à janela — única fonte de luminosidade no recinto.

Ao abandonarem a penumbra, os indivíduos se misturam com a areia, reduzidos a pequenas silhuetas à beira-mar.

Por fim, em 1964, a fotógrafa se instalou na residência de um médico católico em Diamantina, centro de Minas Gerais.

Durante quinze dias, acompanharia a rotina do patriarca no Hospital Nossa Senhora da Saúde, observando sua interação com gestantes e freiras, as andanças pelas ruas de arquitetura colonial, o fervor das comemorações cristãs e a opulência das igrejas barrocas.

Na casa de um médico em Diamantina, o cotidiano se mescla com o sagrado. (Claudia Andujar/Galeria Vermelho)

No espaço doméstico, o cotidiano se funde com o sagrado — às voltas com imagens religiosas, sujeitos jogam cartas, uma mulher toca piano, dezenas de crianças correm para lá e para cá.

“Falei sobre a série com algumas dessas famílias, e os relatos se parecem bastante”, afirma Brandão, contando como essas pessoas viam Andujar.

“Todos se lembram de uma mulher alta, bonita, muito calada, que cruzava rios a nado e fazia exercício o tempo todo. Eu, particularmente, a imagino transitando por esses núcleos como uma borboleta, sem nunca interferir na ação”.

Andujar queria publicar o ensaio na Cláudia, revista feminina da Editora Abril — mas foi ignorada.

“Acho curiosa a ideia de família que circula pela mídia”, avalia Rivitti.

“Existe toda uma idealização, bem típica das propagandas de margarina, escondendo desigualdades que serão tensionadas por obras como essa. É bem sintomático que ela não tenha conseguido publicar as fotos na época”.

ESTIGMAS

Homossexuais aproveitam a vida noturna do Rio de Janeiro; trabalhando em revista, Andujar se voltou para setores estigmatizados da sociedade. (Claudia Andujar/Galeria Vermelho)

Andujar se tornaria mais conhecida a partir de 1967, graças a seu trabalho em outro veículo da Abril — a Realidade, revista que marcou a imprensa brasileira na segunda metade do século 20.

Debates políticos e mudanças comportamentais permeavam a linha editorial da revista, sempre atenta à controvérsia e ao desconhecido.

Os fotógrafos eram livres para se entregar a abordagens visuais autônomas, ligadas ao texto somente pelo objeto em comum.

Andujar, por exemplo, trabalhava longe dos repórteres, em pautas dedicadas a setores estigmatizados da sociedade.

Naquele momento, vivia maritalmente com o fotógrafo afro-americano George Love, também colaborador da publicação.

“A Claudia me falou muito das andanças que eles tinham em Nova York”, recorda-se Brandão.

“Ela nunca aderiu ao senso comum, à família tradicional. E ali, nos Estados Unidos, era alvo de ofensas por estar caminhando na rua ao lado de um preto. Acho que ela sempre se sentiu marginalizada, e os ensaios para a Realidade talvez representem sua busca por lugares mais confortáveis.”

Um desses cliques nos mostra uma prostituta com seios expostos, amamentando o filho em alguma localidade não identificada.

Em outro flagrante, vemos uma stripper, mal disfarçando o próprio tédio, despir-se ante a plateia masculina de um pequeno teatro.

Um paciente definha no Hospital Psiquiátrico do Juqueri. (Claudia Andujar/Galeria Vermelho)

Internos definham a esmo no Hospital Psiquiátrico do Juqueri, e gays marcam encontros furtivos pelas esquinas do Rio de Janeiro.

Em Minas Gerais, turbas desesperadas se enfileiram para que o médium Zé Arigó, suposto cirurgião espiritual, lhes introduza uma faca no olho.

Em um apartamento da capital paulista, um dependente químico cheira cocaína e injeta alucinógenos, mas Andujar não se basta com a imagem cinzenta dos apetrechos — mediante filtros, confere às seringas uma tonalidade lisérgica, oscilando entre o verde e o vermelho.

“A maioria do meu trabalho é em cor”, disse ao Jornal do Brasil em 9 de outubro de 1971.

“Se você fotografa em preto e branco, metade da sua criatividade está no laboratório. […] Porque foi você quem esteve lá, que sabe a luz, o lugar, o que você pretendeu dizer quando estava operando.”

O médium Zé Arigó introduz uma faca no olho de um fiel, durante uma suposta cirurgia espiritual. (Claudia Andujar/Galeria Vermelho)

Com um par de máquinas sob o pescoço, ela embarcou na extinta ferrovia ligando o bairro do Brás, em São Paulo, a Salvador, na Bahia.

Em uma longa viagem de sete dias, foi acompanhada por dezenas de migrantes — desempregados e desesperançosos, eles recebiam do governo um pedaço de goiabada, dois pães adormecidos e uma passagem de volta para o Nordeste.

“É o trem do diabo”, anunciaria a Realidade em maio de 1969.

Ao percorrer os vagões em movimento, Andujar se alternava entre as duas câmeras, registrando, ora em cores, ora em preto e branco, a perplexidade das crianças, o cansaço dos adultos, braços estendidos para fora das janelas, cabeças reclinadas sobre bancos de madeira.

“É uma série polêmica, pois aquelas pessoas não estavam exatamente na sua melhor forma para serem fotografadas”, observa Rivitti.

“Por outro lado, não deixa de ser um documento valioso para a gente entender a origem das políticas higienistas que São Paulo nunca deixou de criar.”

CORPOS NA METRÓPOLE

Sônia, uma aspirante a modelo, regressou à Bahia em condições similares. Antes, visitara diversos estúdios na capital paulista.

Andujar foi a única a se interessar pela jovem de pele escura. Corria o ano de 1971. “Não demorei a chamá-la”, escreveu na Revista de Fotografia.

“Sônia não sabia posar. Porém, era justamente disso que provinha seu encanto inocente. Os gestos e atitudes não profissionais revelaram uma sensualidade mansa, tranquila. Ela não parecia estar diante da câmera fotográfica, mas fora do mundo”.

Em busca de entrosamento, Andujar ofereceu-lhe os discos da sua coleção. Sônia rodou alguns na vitrola, afeiçoando-se à música I Had a Dream, gravada pelo americano John Sebastian.

A letra diz: “Tive um sonho na última noite / Que sonho lindo foi esse / Sonhei que estávamos todos bem / Felizes em uma terra de Oz”.

Guiada pela melodia, a modelo assumia poses oníricas — ainda que não soubesse inglês.

Sônia, uma jovem aspirante a modelo, pousou para Andujar ao som da música . (Claudia Andujar/Galeria Vermelho)

Três horas se passaram, e Andujar gastou dez rolos de filme, cada qual com 36 poses.

As fotos, simples e diretas, prenunciavam uma tarefa mais complexa — reconstruir a imagem de Sônia em laboratório, com filtros e sobreposições.

“Às vezes, seu corpo ganha aparência escultórica. Em outros momentos, adquire formas chapadas”, analisa Rivitti.

“Hoje, com a banalização dos filtros no Instagram, a gente olha para esse trabalho sem entender direito a radicalidade de sua técnica. Mas, ali, a Claudia assumia um grande risco, operando de modo lento, artesanal.”

Andujar não se interessava mais por jornalismo. Estimulada pelo crescente reconhecimento da fotografia no circuito artístico brasileiro, vinha direcionando sua carreira aos museus — tornou-se professora do Museu de Artes de São Paulo (Masp), organizou diversas exposições e imergiu-se na pesquisa.

Nessa época, desenvolveu experiências quase clandestinas.

Em 1974, ela sobrevoaria São Paulo, munida de filmes infravermelhos — até então, um material de uso restrito ao Exército, com venda controlada pela ditadura militar.

No regime autoritário, inclusive, Andujar foi citada em dezenas de documentos confidenciais e chegou a ser expulsa de um território indígena em 1978, ao ser enquadrada pela Lei de Segurança Nacional.

Os filmes infravermelhos têm propriedades fotoquímicas que permitem capturar ondas invisíveis a olho nu, acentuando detalhes ocultos e distorcendo nossa percepção cromática.

Uma atmosfera opressiva se instaura nas imagens que Andujar realiza com auxílio da tecnologia.

Há um predomínio do azul e do cinza, em uma perspectiva aérea que ressalta o caráter simétrico dos edifícios e a escassez de vegetação.

Árvores são raras, brotando com tonalidade púrpura entre blocos de concreto. A presença humana simplesmente inexiste.

Abordagem oposta marca um ensaio produzido na rua Direita, logradouro altamente movimentado do centro paulistano.

Com a câmera rente ao asfalto, a fotógrafa engrandece os transeuntes — rodeados por letreiros garrafais, eles se esbarram pela calçada, absorvidos em suas próprias rotinas.

Dois homens caminham por um descampado em Brasília; contexto da foto é pouco conhecido. (Claudia Andujar/Galeria Vermelho)

São indivíduos solitários, tal como a dupla que estampa uma fotografia misteriosa, identificável no tempo e no espaço graças ao título Brasília, 1965. Seu contexto é uma incógnita.

“Tem um descampado enorme, por onde descem uns homens pequenininhos”, descreve Brandão.

“Um dos caras está de terno, eles andam e conversam. Não tem prédios, nada de arquitetura, um único [Oscar] Niemeyer sequer. É só nuvem e pedra.”

O curador adoraria saber o que houve por ali, mas não conseguiu descobrir.

“A Claudia é uma mulher que não dá trela para o passado. Só o que importa é o futuro”, diz Brandão.

“Ela fica louca de entusiasmo quando descobre uma nova técnica de impressão. Mas se você perguntar o que ela foi fazer lá no Distrito Federal, ela finge que nem escuta.”

Fonte: https://www.agazeta.com.br/mundo/deportados-nordestinos-gays-e-prostitutas-a-fotografa-pioneira-que-fugiu-do-nazismo-e-retratou-as-contradicoes-brasileiras-0225

MAIS FOTOS DE ANDUJAR

A escuridão prevalece na casa rústica de um pescador caiçara.

A fase antropológica de Andujar

Aracá, Amazonas Surucucus, Roraima, 1983.

Claudia Andujar no Catrimani, 1974-1975

Claudia Andujar,yanomami, Amazonas-1974

Ensaio fotográfico sobre homossexuais para a revista Realidade, São Paulo, 1967

Êxtase – Da série Sonhos Yanomami

Família paulista.

Irmã e enfermeira Florença Águeda Lindey, Opiki thëri, rodovia Perimetral Norte (abandonada), Roraima, 1981.

migrantes voltam para o Nordeste em ferrovia que ligava São Paulo a Salvador.

O xamã e tuxaua João assopra o alucinógeno yãkoana, Catrimani, Roraima, 1974

Papiú, Roraima, 1983.

Realidade_Trem_baiano, Ensaio fotográfico sobre imigrantes para a revista Realidade, São Paulo, 1969

Reportagem sobre migração feita para a revista Realidade, 1969

Série Famílias brasileiras, Diamantina, MG, 1964

Série Famílias brasileiras, Diamantina, MG, 1964.

Série Famílias brasileiras, praia de Picinguaba, Ubatuba, SP, 1963

Surucucus, Roraima, 1983.

Um paciente definha no Hospital Psiquiátrico do Juqueri.jpg

EQUIPAMENTO & TÉCNICA

CURIOSIDADES SOBRE A SÉRIE 1 DA CANON

Mariana Paschoal

Jornalista formada pela Universidade Estadual de Londrina, tem experiências em diversas áreas da comunicação, como radiojornalismo, webjornalismo, assessoria de imprensa e fotojornalismo.

O lançamento da câmera fotográfica Canon EOS 1, um dos principais produtos já fabricados pela marca, completou 25 anos no ano passado. Considerada artigo de alta tecnologia, com funções avançadas …

O lançamento da câmera fotográfica Canon EOS 1, um dos principais produtos já fabricados pela marca, completou 25 anos no ano passado. Considerada artigo de alta tecnologia, com funções avançadas e marco na história da produção de câmeras fotográficas na época, a EOS 1 fez e continua fazendo parte da vida e do trabalho de vários fotógrafos profissionais e amadores desde os anos 1990.
O aniversário de lançamento da câmera é comemorado em junho. E em homenagem aos 26 anos da EOS 1, o Blog eMania vai expor algumas curiosidades e detalhes sobre a série 1 de câmeras da Canon, uma das preferidas dos fotógrafos do mundo todo.

A EOS 1 é a quinta câmera SLR profissional da Canon

Apesar de ser da série 1 das SLR da Canon e de muita gente pensar que ele foi pioneira no segmento, a EOS 1 foi a quinta câmera do gênero lançada pela marca. As que antecederam a EOS 1 foram a F-1, lançada em 1971; a F-1n, de 1976; a New F-1, de 1981 e a T90, lançada em 1986.
A EOS 1 ainda não foi a primeira câmeras SLR profissional eletrônica da Canon, sendo que esta é o modelo T90. No entanto, ela foi pioneira em diversos aspectos, como no autofoco e selagem. A selagem, no entanto, foi considerada precária até na época, já que é suficiente apenas para aguentar garoas finas.

A primeira câmera digital da Canon foi baseada na estrutura da EOS1

O lançamento da primeira DSLR da Canon foi no ano de 1995. Ela foi batizada de EOS DCS 3. E estrutura da nova DSLR, na verdade, era uma EOS 1 sobre um back digital da Kodak de 1.3 megapixels.
O surgimento das DSLRs da Canon foi essencial no mundo da fotografia profissional, já que ela passou a ser usada por fotógrafos do mundo inteiro com a intenção de otimizar o fluxo de trabalho.
No entanto, por ser uma câmera muito grande e pesada, ela foi usada principalmente por profissionais de estúdio, já que para a fotografia de paisagem, esporte e jornalismo, em que é necessário o movimento constante, a EOS DCS 3 ficou inviável.

Teste em outros modelos antes de inserir na série 1 da Canon

O teste em modelos inferiores para atingir um melhor resultado nas sucessoras das câmeras top de linha é um método de alcance de qualidade feito pela Canon até hoje nas DSLRs.
No caso da EOS 1, que era o carro chefe da linha em que estava inserida, os testes para melhorar e aperfeiçoar elementos para a sucessora eram feitos através da aplicação de novas tecnologias em modelos inferiores e destinado ao público amador.
Foi assim que a EOS 1n, uma das sucessoras da EOS 1, foi lançada em 1994 com o sistema de cinco pontos de autofoco. A tecnologia da nova câmera foi montada a partir da EOS 5, lançada em 1992. Com a EOS 1v, de 2001, a Canon fez a mesma coisa com o sistema de 45 pontos de autofoco, montado a partir da EOS 3, lançada em 1998.

O primeiro adaptador FD para a EOS era da Canon

Com o lançamento do sistema EOS, a Canon precisava criar uma estratégia para garantir que os clientes fizessem a mudança de sistema tranquilamente. Para isso, a companhia disponibilizou no mercado um adaptador oficial para converter as lentes objetivas da série L em lentes mount EF da série 1.
Esses adaptadores, no entanto, eram compatíveis apenas com as lentes teleobjetivas da Canon para, segundo a marca, “garantir o máximo de qualidade possível”. Essa era uma estratégia para que os fotógrafos comprassem também as lentes.
Com o lançamento da EOS 1, que possuía autofoco preciso e automático, o adaptador não era mais necessário e parou de ser produzido. Os fotógrafos então preferiram trocar as EOS pelas EOS 1.

Migração de câmeras Canon analógicas para as digitais foi feita depois de 2006

De acordo com pesquisas de mercado feitas pela própria Canon, grande parte dos fotojornalistas que utilizam a Canon migrou para a fotografia digital depois de 2006, apesar de as DSLRs já estarem disponíveis para venda há alguns anos.
Antes disso, a câmera mais vendida da Canon era a EOS 1v, que auxiliava trabalhos de fotojornalismo, fotografia de esportes e natureza devido ao autofoco rápido e uma alta velocidade de disparo de imagem.
Por causa dessa preferência e pela EOS 1v ter ficado tanto tempo na liderança, a Canon ainda mantém o serviço de suporte aos donos dessa câmera, além de serviços de manutenção destinados a profissionais.

EOS 1v: a SLR profissional produzida por mais tempo pela Canon

De todas as SLRs profissionais produzidas pela Canon, a EOS 1v é a que ficou mais tempo em produção, sendo fabricada de 2001 a 2013. As outras SLRs da marca, desde a F-1, que começou a ser fabricada em 1971, foram produzidas por cinco anos aproximadamente.
A Canon nunca anunciou, oficialmente, o motivo pelo qual essa câmera parou de ser produzida há dois anos. Como citado anteriormente, especula-se que tenha sido por causa da queda de venda a partir de 2006, quando os fotógrafos migraram para as câmeras digitais.
Apesar de terem parado de fabricar, a Canon ainda tem disponíveis algumas EOS 1v novas à venda por todo o mundo, em diversos revendedores. Elas chegam a custar em torno de US$ 1500.

Fonte: https://blog.emania.com.br/curiosidades-sobre-a-serie-1-da-canon/

PRATA DA CASA

FOTÓGRAFO PAULO VITALE RETRATA CHEFS DE MANEIRAS DIFICILMENTE VISTAS ANTES

https://www.instagram.com/paulovitale/

O fotógrafo Paulo Vitale costuma dizer: “Sou um péssimo cozinheiro”. Seu verdadeiro talento gastronômico parece ser outro: ler e decifrar as personalidades daqueles que, diferentemente dele, detêm a habilidade de manejar facas e fogão. Em Chefs, o retratista paulistano exibe cinquenta imagens de 51 profissionais da cozinha que atuam no país, boa parte deles à frente de restaurantes da capital.

Publicada pela Editora Brasileira, a brochura de 206 páginas é complementada com 51 receitas e tem apresentação do editor sênior da Vejinha, Arnaldo Lorençato. “Paulo busca inspiração na gastronomia e na personalidade de cada chef e mergulha em suas próprias referências nas artes plásticas para que a foto funcione como um retrato da alma do retratado”, diz Lorençato.

A obra chega às livrarias e lojas virtuais ao preço sugerido de 99,90 reais na quarta (10), no mesmo dia em que ocorre o lançamento para convidados na recém-aberta Casa Capim Santo, no Instituto Tomie Ohtake. Quase todas as fotos do livro foram feitas no estúdio de Vitale, no bairro do Sumaré, e têm uma linguagem única. “A ideia inicial era ter uma estética com uma luz lateral amarelada, do Rembrandt, e uma dramaticidade mais ligada às pinturas de Caravaggio”, explica o fotógrafo.

Os retratados aparecem em situações em que dificilmente foram vistos antes, e a maioria carrega algum ingrediente ou objeto. À la Joana d’Arc, Paola Carosella, do Arturito e da rede La Guapa, segura uma tampa de panela, seu escudo, e uma faca, sua espada.

Revelação pela mais recente edição VEJA SÃO PAULO COMER & BEBER, Bela Gil, do Camélia Òdòdó, inspira o aroma de seu buquê de ervas. “Tem alguns elementos que sintetizam a pessoa”, acredita Vitale, que enaltece o trabalho dos retratados. “Os chefs são gente cascuda, que trabalha sob pressão, e o cliente é um déspota, que está lá, sentado no seu trono, e tem de ser agraciado”, teoriza.

Para produzir as imagens, alguns dos cozinheiros precisaram ser fortes. Paulo Yoller, da hamburgueria Meats, ficou pendurado como um pedaço de boi em um frigorífico, num raro clique fora do estúdio. Felipe Schaedler, do amazônico Banzeiro, foi retratado com um pirarucu na mão e levou um banho de água na cara. “Ele não tinha roupa seca e foi embora molhado”, revela o autor.

Oscar Bosch, dos espanhóis Nit e Tanit, foi apoiado de lado, com um polvo na cabeça, para ganhar o efeito de “molusco ao vento”. “Fiquei com cheiro de polvo uma semana”, se diverte o chef. “Mas foi uma das imagens que mais impactaram no livro”. Não à toa, virou a capa.

Conforme ia fotografando, Vitale postava imagens no Instagram, o que, não raro, rendia solicitações de cozinheiros para participar do projeto. Ele já planeja uma segunda edição, e conta com dezoito fotos prontas de outros nomes, que não couberam no atual lançamento.

A produção de Chefs aconteceu entre 2016 e 2020 e ganhou força no primeiro ano da quarentena, quando o retratista e os retratados tiveram mais tempo. “A pandemia me trouxe uma luz. Não vou deixar meus trabalhos comerciais postergarem tanto meus trabalhos autorais”, promete o autor, que lançou Drags (Editora Brasileira, 120 págs., 99,90 reais) em maio, com fotos de drag queens.

Há, ainda, um compilado de fotografias de cartunistas e mais um de personagens envolvidos em festas populares do interior paulista por vir, entre outros. A conferir.

Willian Seiji

Edvaldo Caribé

Fabio Espinosa

Uilian Goya

Paulo Machado

Andrea Kaufmann

André Mifano

Roberta Sudbrack

Janaína Torres

Dona Carmen Virgínia

Saulo Jennings

Benny Novak

Morena Leite

Tuca Mezzomo

Alexandre Vorpagel

Gil Guimarães

Fonte: https://vejasp.abril.com.br/coluna/arnaldo-lorencato/livro-paulo-vitale-chefs

FOTOLENDO

O RENASCIMENTO DA FOTOGRAFIA ANALÓGICA: A NOVA GERAÇÃO E O RETORNO AO FILME

Maria Heckert (cineasta, publicitária e fotógrafa iniciante)

Nos últimos anos, a fotografia analógica ressurgiu com uma força surpreendente entre pessoas de todo o mundo, especialmente entre as gerações mais jovens. A preferência por câmeras de filme, que em grande parte foram substituídas pelas soluções digitaisganhou muita força como uma resposta às demandas estéticas e emocionais que apenas o processo analógico pode proporcionar. Para muitos, esse retorno ao passado não é apenas uma questão de nostalgia, mas uma forma de explorar a essência da arte fotográfica em sua forma mais pura e manual. O que antes era considerado obsoleto agora é redescoberto como uma arte distinta.

A Estética e o Processo Analógico

A fotografia analógica oferece uma experiência única que contrasta com a rapidez e a previsibilidade do digital. A espera pelo desenvolvimento dos filmes, a incerteza quanto ao resultado, e até mesmo as imperfeições como granulação e cores sutis, são aspectos que muitos estão redescobrindo e valorizando. O processo manual também força uma conexão mais profunda com cada clique, fazendo com que o ato de fotografar se torne mais intencional e meditativo.

A geração Z, por exemplo, tem demonstrado interesse crescente por câmeras antigas como as clássicas 35mm e médio formato. Para muitos, essa preferência vai além de um simples modismo; trata-se de uma busca pela autenticidade em um mundo onde as imagens digitais podem ser facilmente manipuladas e compartilhadas de forma instantânea. O ato de fotografar em filme se torna um contraponto ao ritmo acelerado da vida moderna, oferecendo uma pausa criativa e a chance de experimentar algo tangível e físico.

As Técnicas e o Apelo das Imperfeições

Além do uso de câmeras de filme, técnicas antigas como o processo de revelação em cianótipo, colódio úmido e impressão em platina têm ganhado adeptos que veem nessas metodologias uma forma de adicionar profundidade e textura às suas imagens. O processo manual e muitas vezes imprevisível de revelação e impressão adiciona uma dimensão artística que nem sempre pode ser replicada com tecnologias digitais.

Essas imperfeições, que seriam consideradas falhas no mundo digital — como desfoques, vazamentos de luz e sobreposições — agora são vistas como marcas da autenticidade do trabalho analógico. Para muitos fotógrafos, elas são parte da narrativa visual, criando uma relação mais íntima entre o artista e a obra, e entre a obra e o espectador.

O Ciclo das Tendências: Entre o Novo e o Clássico

Assim como na moda e em outras formas de expressão artística, a fotografia segue um ciclo de tendências. O que vemos com o retorno da fotografia analógica é, em parte, uma resposta à saturação do digital. Nos últimos anos, com a explosão das redes sociais e da cultura visual online, as imagens digitais se tornaram abundantes, muitas vezes com características semelhantes devido aos filtros e ajustes automáticos. Além do super acúmulo de imagens nas “nuvens”, que diferente dos álbuns físicos, não são revisitadas com tanta frequência.

Em contrapartida, o analógico oferece algo raro: a exclusividade. Cada imagem é única, irrepetível, e esse aspecto está ganhando destaque em um momento em que a busca por autenticidade e personalização está em alta. Além disso, a conexão emocional com o processo artesanal da fotografia em filme tem um apelo significativo em um mundo cada vez mais automatizado.

Essa tendência de volta ao filme também revela um desejo de equilíbrio. Fotógrafos não estão abandonando o digital, mas, ao combinar os dois mundos, criam uma nova estética, uma fusão do moderno com o clássico, o que expande as possibilidades criativas.

Analógico e IA: Dois Lados da Mesma Moeda?

Curiosamente, enquanto a fotografia analógica vive um renascimento, outro fenômeno contemporâneo também ganha força: o uso de inteligência artificial (IA) na criação de imagens. De um lado, a fotografia em filme oferece uma experiência tangível e artesanal, atraindo quem busca autenticidade e singularidade. Por outro, a IA permite criar imagens infinitas e visualmente perfeitas, explorando o conceito de “beleza algorítmica” com uma precisão que o analógico não pode oferecer. O crescimento de ambos reflete uma dualidade na fotografia atual — um desejo de explorar o tradicional, junto a uma curiosidade pela tecnologia de ponta. A coexistência desses estilos revela como os fotógrafos equilibram as diferentes facetas da arte, buscando o melhor de cada abordagem para expressar sua visão artística.

O Crescimento do Mercado de Câmeras Analógicas

O mercado de câmeras analógicas tem crescido expressivamente nos últimos anos, impulsionado por essa onda de fotógrafos e entusiastas em redescobrir a estética e o processo únicos da fotografia em filme. Por exemplo, a Fujifilm relatou um crescimento de quase 19% em receitas para o segmento de câmeras analógicas entre 2021 e 2022, liderado por itens como Instax e papéis fotográficos coloridos​. Marcas como Kodak e Lomography têm investido na reintrodução de filmes populares e câmeras, ajustando sua produção para atender a uma base de consumidores crescente e nostálgica​.

Além disso, o preço do filme e das câmeras disparou devido à popularidade. Um levantamento de Analog Cafe mostra que, embora alguns filmes como o ColorPlus 200 da Kodak tenham tido leves reduções em 2024 para incentivar a prática, a demanda crescente ainda mantém os preços elevados. Influenciadores nas redes sociais também têm impulsionado o interesse por câmeras analógicas, apresentando seu estilo e charme a um público ainda mais amplo.

O Futuro do Analógico na Fotografia

É difícil prever se a fotografia analógica continuará crescendo ou se este renascimento é apenas um ciclo passageiro. No entanto, a paixão dos jovens fotógrafos pelo filme parece estar transformando a forma como encaramos o futuro da fotografia. A combinação de técnicas tradicionais com a tecnologia moderna está gerando uma revolução silenciosa, onde o processo fotográfico é tão importante quanto o resultado final.

Com o renascimento da fotografia analógica, estamos testemunhando um movimento que celebra a paciência, a imperfeição e a habilidade artesanal, características que muitas vezes se perdem no ritmo acelerado da era digital. No final, o que realmente importa não é o meio, mas a história que cada fotógrafo escolhe contar através de sua arte.

Fonte: https://www.epics.com.br/blog/o-renascimento-da-fotografia-analogica-a-nova-geracao-e-o-retorno-ao-filme

concursos

III GRANDE PRÊMIO CONCURSO DE FOTOGRAFIA “MEU CORAÇÃO BRASILEIRO”: TEMA LIVRE 2025

O Grupo Acheaqui Arte e Cultura tem o prazer de anunciar a abertura das inscrições para o III Grande Prêmio Concurso de Fotografia “Meu Coração Brasileiro”, que acontecerá até 30 de abril de 2025. Este concurso é uma oportunidade inestimável para fotógrafos amadores e profissionais do Brasil expressarem sua criatividade e amor pela arte em um tema completamente livre.

A edição deste ano visa selecionar 20 obras que serão apresentadas em uma exposição virtual no Portal Acheaqui Arte e Cultura, que conta com mais de 100 mil visitas mensais e uma forte presença nas primeiras páginas do Google, destacando temas relacionados à fotografia, arte e cultura de todos nichos.

### Objetivo do Prêmio

Com a proposta de estimular a arte e a cultura através das artes visuais, o concurso não apenas oferece uma vitrine para os talentos emergentes da fotografia brasileira, mas também busca fomentar o diálogo sobre a diversidade cultural do nosso país. Após três meses de exposição virtual, planejamos inscrever a coleção de obras selecionadas na Lei Rouanet, promovendo assim um alcance ainda maior para os artistas envolvidos.

### Regulamento e Submissão

De acordo com o Regulamento 004/2025, as obras fotográficas devem ser submetidas em formatos JPEG, PNG ou JPG, com um tamanho mínimo de 1 MB e dimensões de pelo menos 800 x 800 pixels. Os participantes poderão enviar entre 1 e 5 obras, desde que estejam acompanhadas das seguintes informações: nome do autor, estado, cidade, uma mini biografia e a informação se a fotografia foi criada com o auxílio de inteligência artificial.

O valor da taxa de inscrição é: Até –  02 Obras R$ 25,00 – 03 Obras R$ 35,00 – 04 Obras R$ 40,00 – 05 Obras R$ 50,00 – que devem ser anexadas ao e-mail enviado ou pelo formulário da página oficial do concurso. Todas as submissões devem ser enviadas para o e-mail [ acheaqui@editaisculturais.com.br ] ou pelo formulário do concurso.

### Premiação

Os cinco primeiros colocados serão agraciados com um prêmio de R$ 4.000,00 cada. Essa valorização reflete o compromisso do Grupo Acheaqui Arte e Cultura em reconhecer e apoiar o talento dos fotógrafos brasileiros. Do sexto até o décimo colocado serão agraciados com um vale-presente no valor de R$ 1.000,00

### Julgamento e Resultados

Os resultados do concurso serão publicados na página oficial do concurso em até 15 dias após o término das inscrições. A avaliação ficará sob a responsabilidade da equipe do Grupo Acheaqui Arte e Cultura, que avaliará as obras levando em conta critérios como originalidade, criatividade, técnica e beleza. É importante ressaltar que as decisões da comissão julgadora são irrevogáveis e não caberão recursos.

### Considerações Finais

O III Grande Prêmio Concurso de Fotografia “Meu Coração Brasileiro” é mais do que uma simples competição; é um convite para fotógrafos de todos os cantos do Brasil compartilharem suas perspectivas e histórias através de suas lentes. Ao participar, você não só concorrerá a prêmios financeiros, mas também terá a chance de expor seu trabalho para um público amplo e diverso, contribuindo para a rica tapeçaria cultural do nosso país.

Prepare sua câmera, encontre sua inspiração e esteja pronto para capturar a essência do que significa ser brasileiro em sua própria visão. Se você ama a arte de fotografar e deseja que suas obras sejam vistas, não perca essa chance! As portas estão abertas, e o seu lugar na história da arte brasileira pode começar aqui.

Para mais informações e para acompanhar as atualizações sobre o concurso, visite nosso site http://www.editaisculturais.com.br. Estamos ansiosos para ver o que seu coração brasileiro tem a oferecer!

Inscrições até: 30.04.2025

CHAVE PIX: acheaqui@editaisculturais.com.br

Participe e faça parte dessa celebração da arte e da cultura!

Inscrições: https://www.editaisculturais.com.br/iii-grande-premio-concurso-de-fotografia-meu-coracao-brasileiro-tema-livre-2025/

Fonte: https://www.editaisculturais.com.br/fotografia/

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