Nº 007

EDITORIAL

Ao ouvir o nome de Walter Firmo (1937) imediatamente somos transportados para um universo onde as cores dialogam conosco, com nosso olhar e povoam nossa memória. Mais do que isso essas cores incorporam uma narrativa construída, – por vezes mesmo encenada -, onde fica claro a consciência de origem racial, social e cultural.

Suburbano, filho de pai negro e mãe branca, Firmo voltou seu olhar poético para o registro da população negra – a qual sempre pertenceu –, seja nos subúrbios do Rio de Janeiro, seja país afora, apontando sua câmera para as manifestações religiosas, para as festas e as múltiplas manifestações culturais.

A exuberância das cores de sua vasta obra nos transporta para a necessidade de resistência e resiliência da população negra tão carente de justiça num país que insiste em manter-se estruturalmente estamental e segregacionista.

Walter Firmo vai pendurar suas câmeras em breve, do alto de seus 88 anos – 72 dos quais de fotografia – , e irá fechar com chave de ouro sua carreira oferecendo um último curso, uma última oportunidade de aprender com ele a magia das cores.

Para aqueles que como eu amam a oitava arte, uma oportunidade imperdível.

Fred Fernandes

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WALTER FIRMO, A PELE NEGRA DA FOTOGRAFIA

Com trajetória longeva, fotógrafo carioca estabelece visibilidade do negro na sociedade brasileira

Por José Afonso Jr.

No documentário Muito prazer, Walter Firmo, de 2008, dirigido por Zeka Araújo e Vicente Duque Estrada, o fotógrafo explica uma de suas teses centrais. Lançando mão do que é talvez a sua imagem mais lembrada, o retrato de Pixinguinha feito em 1967, na qual o músico segura um saxofone e olha para um ponto abstrato, fora do enquadramento. “Há dois tipos de fotógrafo. Um é como o batedor de carteiras. Aquele cara que age rápido, chega na cena, obtém a imagem, às vezes de modo atabalhoado, faz o clique e some. Outro, é o engenheiro. Esse arruma a cena, compõe, resolve o enquadramento, estabelece relações entre o personagem e o ambiente. É o Walter Firmo que coloca o Pixinguinha na cena, sentado, debaixo de uma mangueira, dirige e faz a foto. E tem aquele outro que é a soma dos dois: o invisível. Esse é o Cartier-Bresson. Consegue ser rápido e compõe a cena de modo perfeito.” Parece fácil.

François Soulages, autor de Estética da fotografia, diz que não se tira uma foto. Ao contrário, põe-se, elabora-se ou intenciona-se uma fotografia. Isso fala sobre o fotógrafo-autor que se coloca entre limites e possibilidades de criação em outra ordem de tempo, assuntos, sujeitos e abordagens. Noutro prisma, ao “se colocar uma foto”, se estabelecem vínculos entre a obra, o autor e como tal conexão informa o que vai ser fotografado antes mesmo dessa fotografia vir a informar.

Walter Firmo, 84 anos, fotógrafo, negro, brasileiro, filho de paraenses – pai negro e mãe branca –, nascido e criado no subúrbio carioca, morador transitório no Recife dos anos 1940, viajante. Foi até verbete da Enciclopédia Barsa, diante do destaque de sua trajetória. No caso, o lógico é sobrepor trabalho e obra, percurso de vida e fotografia. Assim, multiplicam-se os feixes de sentidos na direta proporção em que o seu engenho de composição, os seus assuntos e posicionamentos elaboram visualmente uma presença do povo negro brasileiro.

As fotografias de Walter Firmo são sujeito, matéria e percurso do seu trabalho em uma larga exibição organizada pelo Instituto Moreira Salles – IMS, aberta no prédio da Avenida Paulista, em São Paulo, desde 30 de abril, permanecendo em cartaz até 11 de setembro deste ano. Em seguida, terá lugar no Rio de Janeiro. A exposição, intitulada No verbo do silêncio, a síntese do grito, tem curadoria de Sergio Burgi, curadoria adjunta de Janaína Damaceno Gomes, com assistência da conservadora-restauradora Alessandra Coutinho Campos, pesquisa biográfica e documental de Andrea Wanderley, e integrantes da Coordenadoria de Fotografia do IMS. Apresenta um conjunto de 266 fotografias, que cobrem uma parcela da produção de Firmo desde os anos 1960.

A partir de um recorte extraído de um volume de imagens com 140 mil registros, sob cuidado e conservação do IMS, a linha de força da exposição consiste não somente em perceber em Firmo a plasticidade da sua fotografia em cores. Esse viés de mestre colorista é recorrente em muitas das críticas, textos e entrevistas do fotógrafo, ou sobre ele. Afinal, na adoção do colorido em seu trabalho desde os anos 1960, ele se tornou um referencial de expressão de uma certa cor brasileira, tropical, vibrante e temperada.

A contrapelo desse fio que liga Firmo à paleta de cores, há toda uma parcela da mostra realizada em preto e branco, em formato quadrado, na qual ganha destaque o ensaio realizado ao longo de alguns anos na Praia de Piatã, em Salvador. Lá, o balneário é reduto de lazer da população negra. O modo de ocupação que emerge nas fotografias é povoado por famílias, casais, jovens e crianças negras, em momentos de relaxamento e esvaziados de conflito aparente. O conjuntos dessas fotos dão a ver, entre outros sentidos, o que seria um país desenraizado do racismo.

Para além dos marcos estéticos praticados em cores ou preto e branco, o que dá corpo e pele à sua obra é a assimilação da negra cor. A mesma que habita o país com a segunda maior população negra do mundo (a Nigéria é o primeiro). Seria óbvio, portanto, termos na fotografia, em geral, a presença da população que descende da diáspora africana ocupando trabalhos, temas e espaços sincrônicos à sua importância ancestral, cultural, 

Há um eixo que estrutura o trabalho de Firmo. Primeiro, ele seleciona: não repete, nem generaliza representações do povo negro que estigmatizem e tipifiquem a cor da pele vinculada às situações discriminatórias e depreciativas. Nas palavras dele, em entrevista para este artigo: “Para mim, o fotógrafo trabalha com uma engenhosidade cerebral aliada ao seu estado físico e de artista. Você quer algo mais do que uma fratura exposta, que é aquela foto onde se tem sempre o domínio da imprensa (…) o flagrante. Isso eu estou fora! Desde quando, aos 15 anos, resolvi ser fotógrafo, queria trabalhar com outros enredos de verdade que constituem a vida, que é o sonho, não é?”. Segundo, as imagens se articulam, assumem posicionamentos engajados. O leque de possibilidades enquadrado, colorizado, organizado em composição e eternizado por Walter Firmo é uma postura política, alinhada à visibilidade do negro na sociedade brasileira, não necessariamente seguindo uma estética documental pré-estabelecida.

O ponto de virada, segundo o próprio Firmo, se deu no período em que viveu nos Estados Unidos. Já com 30 anos, fotógrafo reconhecido no meio profissional, trabalhava na sucursal de Nova York da extinta revista Manchete. Um dia, o chefe de redação mostrou-lhe uma carta chegada do Brasil. Nela, um jornalista dizia não entender como a Editora Bloch podia ter como correspondente um “mau profissional, analfabeto e negro”. A reação diante do racismo explícito veio em forma de indignação e de uma adesão direta ao slogan black is beautiful em duas frentes: no corpo, pela adoção do penteado black power; e em sua fotografia, a partir daí direcionada definitivamente à população negra.

Retratos feitos na Praia de Piatã, Salvador/BA, nos anos de 2000,
2002 e 2003. Imagens: Walter Firmo/Acervo IMS

No conteúdo da exposição, acessível também pelo catálogo bem editado, percebe-se como essa linha autoral de Firmo não se deu de modo instantâneo, mas cumulativamente. Percebe-se o progressivo afastamento de sua linguagem visual de uma urgência pragmática do fotojornalismo, direcionando-se àquilo que o curador Sérgio Burgi denomina “síntese narrativa de imagem única”.

Proposta: olhe para a célebre fotografia de Pixinguinha. Saiba que ela foi dirigida e construída. Mas esses protocolos de encenação, para além da linguagem autoral, revestem-se de atributos como a consciência de pertencimento racial, cultural e o enfrentamento (lembrem-se, a foto é de 1967) das bases rígidas da fotografia documental, bem como da fotografia de imprensa de então.

O exercício crítico sobre fotografias é entender por que elas são como são. Rever Pixinguinha pelos olhos de Firmo envolve, para além das intersubjetividades em jogo, acessar a importância do músico, a brasilidade presente e o percurso do fotógrafo. Este, alinha os elementos entre o personagem, a cadeira de balanço, o saxofone, a sombra da mangueira. Mostra um Brasil delicado, sereno, possível na sensibilidade, tributário da arte e do trabalho do povo negro. É uma fotografia icônica, pois está prenhe de sentidos. Ela seria menos verdadeira por ser dirigida?

O método do “fotógrafo-engenheiro da síntese narrativa de imagem única” enlaça duas estéticas aparentemente dessemelhantes. Primeiro, a fotografia nas ruas, nas florestas, nos terreiros, nos sertões. Segundo, a conciliação dessas geografias diversas com o protocolo da pose. Esse protocolo, para quem fotografa, envolve um tempo de elaboração, de envolvimento, do entendimento das particularidades dos sujeitos e sua tradução em empatia. Recurso presente, por exemplo, no estúdio, ou mesmo na fotopublicidade. Firmo inverte as técnicas, quando aponta a câmera para uma relação dos sujeitos com as paisagens ou com o entorno, equalizando o acaso da rua e o controle dos procedimentos. Gerando o que, com tranquilidade, assume ser o Brasil como seu estúdio.

***

Prosseguindo, no conjunto de referências operado por Firmo, há elos com as artes visuais, destacadamente do trabalho de Alberto Guignard, de sua abordagem modernista com temas e personagens brasileiros.

As referências das artes plásticas são possibilidades de elaboração visual que deslocam a encenação, a pose e a direção para os códigos e características da frontalidade, do enquadramento direto e figurativo, organizados em modo de retrato fotográfico. Contudo, nessa transcodificação, há a vivência do próprio Firmo: “Eu estava em um mostra da pintura de Guignard. Foi quando eu o conheci através da sua arte e vi lá um quadro com um fuzileiro do lado de uma sinhazinha. Poxa, Guignard! A gente tinha que ter visto isso aí… Essa imagem sou eu, um filho de um fuzileiro naval. Foi por aí”, expõe.

Cantora Clementina de Jesus, Rio de Janeiro/RJ, c. 1977.
Imagem: Walter Firmo/Acervo IMS

Essa ultrapassagem de fronteiras dos gêneros fotográficos propicia a arena de enfrentamento de várias proposições sobre a fotografia, os assuntos e o direito de como isso deve ter visibilidade. Não à toa, a opção de Firmo de reconhecimento contínuo e central do negro na sua imagem enquadra músicos, atores e atrizes, artistas visuais, pessoas de destaque. Se nas suas fotos habitam Clementina de Jesus, Dona Zica, Cartola, Nelson Cavaquinho, Donga, Carlos Cachaça, Candeia, Dona Yvone Lara, Jamelão, Mestre Marçal, Madame Satã, Ismael Silva, Paulinho da Viola, Moreira da Silva, Milton Nascimento, Paulo Moura, entre tantos outros, elas também são atravessadas por brasileiras e brasileiros anônimos, pescadores, brincantes, vendedores ambulantes, quilombolas, trabalhadores, passistas, pais e mães de santo, seus próprios pai e mãe, personagens da diáspora fotografados em outros países, como Cuba, Cabo Verde, Jamaica, EUA; seja na desambição das vidas cotidianas, como no êxtase das festas religiosas, na cultura popular, nos subúrbios. Cara a cara, olho no olho, pele a pele.

Como ele afirma, em entrevista transcrita no catálogo da exposição: “Tudo, incluí tudo no mesmo saco. A vertigem é em cima deles. De colocá-los como honrados, totens, como homens que trabalham, que existem. Eles ajudaram a construir este país para chegar aonde ele chegou, mão negra, mão crioula. Então, isso não podia passar em branco na minha vida, era uma desforra”.

Artista Arthur Bispo do Rosário na Colônia Juliano Moreira,
Rio de Janeiro/RJ, 1985. Imagem: Walter Firmo/Acervo IMS

Perceber que, em um país imenso – em tamanho e diferenças – como o Brasil, essa presença dá o grau de identidade entre o transitório e a permanência, atando visualidades separadas pela geografia e pelo tempo. Pela linha invisível do imaginário que introduz a câmera entre o real, a cenografia e as referências de um território que precisa ser permanentemente redescoberto. É esse banal, coloquial, cotidiano e popular que evoca um delírio cromático impossível a olho nu, mas que faz todo sentido ao ser fotografado. E que compõe o discurso entre o fundo-cenário do enquadramento e o protagonista no primeiro plano.

É, contudo, indissociável moldar a linha autoral de Firmo ao ambiente profissional em que se formou. Relembrando, nas décadas 1950 e 1960, que tivemos no Brasil a era de ouro do fotojornalismo das revistas ilustradas como O CruzeiroRealidadeMancheteFatos e Fotos. Nelas, o jovem fotógrafo testemunhou, conviveu e aprendeu com nomes como José Medeiros e seu interesse nos rituais de matrizes africanas e cultura popular; com Jean Manzon, no impulso de revelar o Brasil profundo, dos indígenas, dos grotões em modo de grande reportagem; de Marcel Gautherot, na expansão para o oeste, construção de Brasília; e de Pierre Verger, na dedicação deste em registrar e sistematizar com etnografia e fotografia os saberes afrodescendentes, sobretudo na Bahia, com ênfase no candomblé e seu enraizamento cultural. “Foram todos meus professores. Nos temas do trabalho deles e no modo de fotografar em 6×6, com a Rolleiflex”, diz ele, referindo-se à câmera de médio formato muito utilizada no fotojornalismo dos anos 1940 até os anos 1960.

Cavalhada, Pirenópolis/GO, 1986. Imagem: Walter Firmo/Coleção do autor

Se, por um lado, temos hoje diversos exemplos de elaboração da imagem do negro na fotografia contemporânea, nem sempre a historiografia e ascendência dessas imagens são evocadas. Perceber que o trabalho de Walter Firmo toca e antecipa questões urgentes sobre a representação do negro, em 50, 60 anos, é algo necessário justamente por assinalar que seu trabalho era uma exceção que confirmava a regra. Transitava entre espaços depreciados da condição social e racial como norma, com canais midiáticos alinhados a posturas racistas e segregacionais. Em meio a isso, os cliques de Firmo, numa interpretação mais profunda, agiam politicamente como uma mímica fotográfica, tocando nas questões de emancipação, orgulho e altivez do povo negro brasileiro. Onde se impedia o grito, a imagem era o verbo.

“Eu trabalho numa excelência de poder deflagrar que meu povo trabalha, que fez esse país. Que tenha essa consciência. Tem família, é do bem. É um totem para mim. Eu sei trabalhar no silêncio. É o meu rancor e a minha percepção em relação a esse enredo, né? Mas, quando eu comecei a fotografar, os únicos negros que eram publicados eram os que faziam teatro, o Grande Otelo, ou o jogador de futebol, como o Pelé. Era isso, o resto não existia. Era aquele cara da foto entrando no camburão da polícia, que vai receber paulada. Eu fiz isso, com sofreguidão, com discernimento e com muita vontade realmente de praticar, embora, de forma silenciosa, todo o meu pudor e o meu rancor em relação a essa atitude.”

Há uma presença recorrente nas palavras de Firmo no que diz respeito à matéria e aos sujeitos que fotografa. São termos como totemcelebraçãoglorificaçãodignidadeorgulho, edificaçãoaltivezconsagração. São ideias, de certo modo, ligadas à religião e a presença do sagrado. Mas, também, são linhas-guia de uma postura sobre o outro. Ao invés de repisar tanto os clichês e tipificações, como as discussões superadas sobre os essencialismos do que é o verdadeiro sentido da fotografia, Firmo opera a quebra de amarras entre o fotógrafo, o real e a fotografia. Faz isso injetando valores de percurso e vivência próprios. Nisso, entre o “silêncio que grita” e a “imagem-verbo”, ele fala do que o negro, o Brasil e a fotografia podem ser.

Gaudêncio da Conceição durante Festa de São Benedito, Conceição da Barra/ES, c. 1989. Imagem: Walter Firmo/Acervo IMS

Durante a entrevista com Walter Firmo para a Continente, não lhe perguntei como ele se qualificava no campo da fotografia. Repórter? Testemunha? Viajante? Artista? Fotógrafo documental? Ativista? Nem quantos livros publicou, nem quantos prêmios ganhou, ou quantos países visitou. Com o tempo, aprendi a não fazer perguntas desnecessárias. Pois, quando o entrevistado é uma referência, melhor que ele se explicar é interpretá-lo. Ao colocar uma foto, em quaisquer desses regimes visuais, o que suscitará que a mesma, ou o conjunto da obra, salte do oceano de excessos das imagens contemporâneas para ser percebida, destacada e problematizada, é ser dotada de singularidade. Mais que verdade, ou fabulação; mais que documento, experimento ou expressão, a fotografia de Walter Firmo fala de singularidade. E esta, em preto e branco ou em cores, tem sempre a pele negra como protagonista.

JOSÉ AFONSO JR., professor e pesquisador.

Fonte: https://revistacontinente.com.br/secoes/artigo/walter-firmo–a-pele-negra-da-fotografia-

UMA CRONOLOGIA WATER FIRMOANA

1937: Walter Firmo Guimarães da Silva nasce no Rio de Janeiro, em 1º de junho, filho único de José Baptista da Silva, militar, enfermeiro no Corpo de Fuzileiros Navais, e Maria de Lourdes Guimarães da Silva, doméstica.

1955: Inicia sua carreira como repórter fotográfico na Última Hora, no Rio de Janeiro, depois de bater à porta do jornal para pedir uma chance. Seu pai lhe dera uma Rolleiflex, e, com ela, o jovem havia feito um curso na Associação Brasileira de Arte Fotográfica, a ABAF.

1957: Serviu no 1º Regimento de Infantaria do Exército, onde conheceu o jornalista e futuro crítico musical Sérgio Cabral (1937- ). Os dois se reencontram  em torno de 1959, quando Cabral, então repórter do Diário Carioca, começa a levá-lo para o ambiente do samba na cidade.

1960: Começa a trabalhar no Jornal do Brasil. Sua primeira reportagem é a visita ao país do presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower.

1963: Conquista o Prêmio Esso de Reportagem, com a série de cinco reportagens Cem dias na Amazônia de ninguém, publicada no Caderno B, o suplemento de cultura do JB.

1965: Integra a primeira equipe da revista Realidade, lançada neste ano pela editora Abril.

1966: Sai da Realidade para trabalhar na Editora Bloch, que publicava a revista Manchete.

1967: Como correspondente da Editora Bloch, permanece por seis meses em Nova York, onde conhece o bairro do Harlem e se interessa pelo jazz. Ao voltar para o Rio, faz, em setembro, a clássica foto de Pixinguinha na cadeira de balanço, em sua casa em Ramos, RJ, em setembro, publicada na edição de 4 de novembro do mesmo ano da Manchete. “Lembro-me, que fiz, num raio de 160 graus, um filme de 36 poses em dois a três minutos, um delírio! Colírio para a história cultural brasileira, certeza que consagrava definitivamente, sob minhas lentes, aquele que há muito tempo já era uma lenda nacional” escreveu em depoimento ao blog A história bem na foto.

1971:  Inicia  pesquisa fotográfica sobre festas do folclore brasileiro. Atua como freelancer em trabalhos publicitários e para a indústria fonográfica, fotografando para capas de discos de vários artistas, como Tim Maia, Djavan, Fafá de Belém e Chico Buarque, entre outros. Nessa época, inicia pesquisas sobre festas populares e folclore nacional.

1972: Tem uma rápida passagem pela revista Veja, na qual voltaria a trabalhar em 1974.

1973: Cria, com Sebastião Barbosa e Claus Meyer, seus colegas da Manchete, a agência Câmara Três. É premiado no Concurso Internacional de Fotografia da Nikon. Até 1982 acumulará um total de sete prêmos no mesmo concurso.

1974: Deixa a Câmara Três para fotografar novamente para a Veja, onde fica até 1980.

1980: Cobre eventos no Equador, Peru, Bolívia, Portugal e França para a revista Tênis Esporte, de São Paulo.

1981: Passa a trabalhar como freelancer, condição que mantém até 1984.

1982: Lança uma coleção de 24 cartões postais em preto e branco, junto com Cafi (1950-2019), Pedro de Moraes (1942-) e Miguel Rio Branco (1946-). O conjunto tem o título Os brasileiros, e prefácio do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997).

1983: O Museu de Arte Moderna do Rio inaugura a exposição Ensaio no tempo, com 200 fotografias em cores e preto e branco. No ano seguinte ela é exibida no MASP (SP) e na Universidade Federal do Ceará. Em 1985, a mesma mostra ainda é apresentada em Curitiba, em Havana (Cuba) e em Cabo Verde.

1985: Passa a integrar a equipe da sucursal carioca da revista IstoÉ. Neste mesmo ano, a exposição Ensaio no tempo seguiu para Curitiba, Havana e Cabo Verde.

1985: Recebe o Prêmio Golfinho de Ouro, concedido pelo governo do Estado do Rio de Janeiro.

1986: É nomeado diretor do Instituto Nacional de Fotografia INFoto — da Fundação Nacional de Arte (Funarte), cargo que ocupará até 1991, quando o instituto é extinto durante o governo Fernando Collor de Mello.

1989: Realiza a exposição New York, Nova Iorque, na Galeria Candido Mendes (Rio de Janeiro, RJ).

Lança o livro Walter Firmo — Antologia fotográfica (Dazibao/Ágil).

1994: É reintegrado à Funarte, passando a atuar na nova Área de Fotografia da instituição, pela qual se aposenta  em 2007. Leciona no curso de jornalismo da Faculdade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, e, desde então, coordena oficinas em todo o Brasil.

1995: Abre a exposição Morte e vida segundo Walter Firmo, no Centro Cultural Unibanco (São Paulo, SP).

1996: Abre a exposição Nas trilhas do Rosa, no Centro Cultural Unibanco (São Paulo, SP). Na mesma ocasião, lança o livro Nas trilhas do Rosa: uma viagem pelos caminhos do Grande Sertão: Veredas  (Editora Scritta), com texto do jornalista Fernando Granato.

1997: Inaugura a exposição Pixinguinha e outros batutas, na Pinacoteca do Estado (São Paulo, SP).

1998: Ganha a Bolsa de Artes do Banco Icatu, com a qual vive por seis meses em Paris. No fim da década de 1990, torna-se editor de fotografia da revista Caros Amigos.

2000: É designado curador do Módulo de Fotografia Contemporânea Negro de Corpo e Alma, na Exposição do Redescobrimento Brasil + 500 anos, no Parque Ibirapuera, em São Paulo.

2001: É publicado o livro Paris, paradas sobre imagens (Ministério da Cultura/Funarte).

2002: É publicado o livro Rio de Janeiro, cores e sentimentos (Editora Escrituras)

2003: A Pequena Galeria (RJ) realiza a exposição Um passeio pela nobreza. Com curadoria de Mario Cohen, reunia 24 fotografias de Firmo retratando artistas da música popular brasileira, como Pixinguinha, Cartola, Paulinho da Viola, Chico Buarque e Clementina de Jesus.

2005: É lançado o livro Firmo (Editora Bem-Te-Vi).

2007: É lançado o livro Walter Firmo (editora Memória Visual), da coleção Álbum de Retratos, com texto da jornalista Cora Rónai.

2008: Lançamento do livro Brasil: imagens da terra e do povo (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), organizado por Emanoel Araújo.

2010: É inaugurada a exposição Walter Firmo em preto e branco, com curadoria do fotógrafo Milton Montenegro, no Oi Futuro Ipanema (Rio de Janeiro, RJ).

2012: A Galeria Imã (São Paulo, SP) inaugura a exposição Walter Firmo: Luz em corpo e alma, com curadoria de Egberto Nogueira.

2013: Inaugura a exposição Walter Firmo: Um olhar sobre Bispo do Rosário, na Caixa Cultural (Rio de Janeiro, RJ). Na ocasião, é  lançado o livro homônimo, da Nau Editora, com o ensaio produzido originalmente em 1985 para a revista IstoÉ. A publicação traz texto da psicanalista Flavia Corpas e uma entrevista com Walter Firmo realizada pelo jornalista José Castelo. No mesmo ano, o Centro Cultural Banco do Brasil (Brasília, DF) exibe a exposição Luz em corpo e alma.

2018: Em maio, o IMS recebe o acervo de Walter Firmo em regime de comodato. São cerca de 145 mil imagens que estão sendo digitalizadas e catalogadas.

2019: O Museu Vale, em Vila Velha (ES), abre a exposição O Brasil que merece o Brasil, com 168 fotografias de Walter Firmo.  A mostra reúne retratos de figuras emblemáticas do país, como Pixinguinha, Cartola, Pelé, Joãosinho Trinta, Clementina de Jesus, Arthur Bispo do Rosário, registros de anônimos  e manifestações culturais de todo o Brasil.

2022: Em 4 de abril, é inaugurada no IMS Paulista a exposição Walter Firmo: no verbo do silêncio a síntese do grito, com curadoria de Sergio Burgi e curadoria assistente de Janaina Damaceno Gomes. A mostra fica em cartaz até 9 de outubro, quando segue para o Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, instituição parceira do IMS, onde é exibida de 9/11/2022 a 27/3/2023. O catálogo da exposição é lançado em maio de 2022, com textos do próprio Firmo, de João Fernandes, diretor artístico do IMS, e dos curadores.

EXPOSIÇÕES

INDIVIDUAIS

:: Ensaio no Tempo 
Ano: 1983
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM (Rio de Janeiro RJ)

:: Ensaio no Tempo 
Ano: 1984
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – MASP (São Paulo SP)

:: Ensaio no Tempo 
Ano: 1984
Universidade Federal do Ceará (Fortaleza CE)

:: Ensaio no Tempo 
Ano: 1985
Curitiba, PR

:: Ensaio no Tempo 
Ano: 1985
Havana, Cuba

:: Ensaio no Tempo 
Ano: 1985
Cabo Verde – África

:: New York, Nova Iorque
Ano: 1989
Galeria Cândido Mendes (Rio de Janeiro RJ)

:: Brasil e nossa gente (cor)
Ano: 1991
Durante a I Feira de Produtos Brasileiros, em Moscou – Rússia.

:: Ribeiros Amazônicos (cor)
Ano: 1993
Belém PA

:: Graciliano Ramos
Ano: 1993
Casa de Rui Barbosa (Recife PE)

:: Achados e perdidos
Ano: 1994
Galeria Cândido Mendes (Rio de Janeiro RJ)

:: Ribeiros Amazônicos (cor)
Ano: 1993
Estação Botafogo (Rio de Janeiro RJ)

:: Morte e vida segundo Walter Firmo (preto-e-branco)
Ano: 1994
Centro Cultural da Light (Rio de Janeiro RJ)

:: Ribeiros Amazônicos (cor)
Ano: 1995
Centro Cultural Unibanco (São Paulo SP)

:: Nas trilhas do Rosa (preto-e-branco)
Ano: 1996
Centro Cultural Unibanco (São Paulo SP)

:: Os sertões de Guimarães Rosas e Euclides da Cunha (preto-e-branco)
Ano: 1996
Instituto Goethe (São Paulo SP)

:: O Brasil de Walter Firmo (cor)
Ano: 1997
Galeria Arte Hoje (Rio de Janeiro RJ)

:: Pixinguinha e outros batutas
Ano: 1997
Pinacoteca do Estado (São Paulo SP)

:: Parisgris – un oeil, deux regards
Ano: 1999
Paris – França

:: Inéditos de Walter Firmo
Ano: 2000
Galeria Câmara Clara (RJ)

:: Paris, parada sobre imagens
Ano: 2000
Galeria Debret, na Embaixada Brasileira em Paris – França

:: Paris, parada sobre imagens
Ano: 2001
Rio de Janeiro e São Paulo

:: Paris, parada sobre imagens
Ano: 2002
Brasília, Belém e Vitória.

:: Um passeio pela nobreza (sobre vários artistas da música popular brasileira, como Pixinguinha, Cartola, Paulinho da Viola, Chico Buarque e Clementina de Jesus) .. [curadoria de Mário Cohen]
Ano: 2003
Pequena Galeria 18 (Rio de Janeiro RJ)

:: Walter Firmo em Preto e Branco
Ano: 2010
Fundação Cultural Badesc (Florianópolis SC)

:: Sem Nomes, do fotógrafo brasileiro Walter Firmo  
Ano: 2010
Galeria dos Arcos da Usina do Gasômetro (Porto Alegre RS)

:: Walter Firmo em Preto e Branco [curadoria do fotógrafo Milton Montenegro]
Ano: 2010
Oi Futuro Ipanema (Rio de Janeiro RJ)

:: Véus, de Walter Firmo
Ano: 2011
Ateliê da Imagem (Rio de Janeiro RJ)

:: Walter Firmo: um fotógrafo negro
Ano: 2011/2012
Museu Municipal (Barueri SP)

:: Walter Firmo: um fotógrafo negro
Ano: 2012
Museu Histórico e Pedagógico Marechal Cândido Rondon (Araçatuba SP)

:: Walter Firmo: Luz em corpo e alma [curador Egberto Nogueira]
Ano: 2012
Ímã Galeria (São Paulo SP)

::  Walter Firmo: um olhar sobre o Bispo do Rosário
Ano: 2013
Caixa Cultural (Rio de Janeiro RJ)

:: O lugar do outro, de Walter Firmo
Ano: 2013
Projeto ‘A Cor da Cultura’. 
Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Maranhão, Pará e Goiás

:: Luz em Corpo e Alma, de Walter Firmo
Ano: 2013
Centro Cultural Banco do Brasil (Brasília DF)

COLETIVAS

:: Fotógrafos do Jornal do Brasil
Ano: 1962
Aeroporto Santos Dumont (Rio de Janeiro RJ)

:: Bienal Nacional 76
Ano: 1976
Fundação Bienal (São Paulo SP)

:: 1ª Mostra de Fotografia
Ano: 1979
Funarte (Rio de Janeiro RJ)

:: Tempo de Olhar: panorama da fotografia brasileira atual
Ano: 1983 
Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro RJ)

:: I Quadrienal de Fotografia
Ano: 1985
Museu de Arte Moderna de São Paulo (São Paulo SP)

:: Rio de Janeiro: retratos da cidade 1840/1992
Ano: 1992
Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro

:: Brasilien: entdeckung und selbstentdeckung
Ano: 1992
Kunsthaus Zürich, Zurique – Alemanha

::O negro brasileiro
Ano: 1994
Universidade de Miami – EUA

:: Ruas do Rio de Janeiro [com Augusto Malta]
Ano: 1995
Centro Cultural Banco do Brasil (Rio de Janeiro RJ)

:: Brasil mostra a tua cara – na 1ª Bienal Internacional de Fotografia 
Ano: 1996
Memorial Curitiba (Curitiba PR)

::Cuba libre (preto-e-branco) .. [com Angela Magalhães]
Ano: 1997
Galeria Observatório Arte Fotográfica (Recife PE)

:: Sagrado Coração (preto-e-branco)
Ano: 1999
PUC-Rio ( Rio de Janeiro RJ)

:: Brasilianische Fotografie 1949 bis 1998
Ano: 1999
Kunstmuseum Wolfsburg, Wolfsburg, Alemanha

:: Visões e Alumbramentos: fotografia contemporânea brasileira da coleção Joaquim Paiva
Ano: 2002 
Oca – Parque do Ibirapuera (São Paulo SP)

:: Negras memórias, memórias de negros – O imaginário luso-afro-brasileiro e herança da escravidão [organização Emanoel Araújo]
Ano: 2003
Galeria de Arte do Sesi (São Paulo SP)

Curador
:: Salão Finep de Fotofornalismo (1995, 1996.1997 e 1998);
:: Módulo de Fotografia Contemporânea Negro de Corpo e Alma [curador], na Exposição do Redescobrimento Brasil + 500 anos, no Parque Ibirapuera (SP), 2000.

O MAGO DAS CORES

Pixinguinha na cadeira de balanço, no quintal de casa. Rio de Janeiro, s.d.

Dona Ivone Lara. Rio de Janeiro, 1992

Cartola. Rio de Janeiro, 1963

Chapada Diamantina, Bahia, 1967

Cavalhada, 1994. Pirenópolis, Goiás

Festa de São João Cachoeira, Bahia, 1971

Circo Mambembe, 1972. Sabará, Minas Gerais

Os mascarados, 1992. Pirenópolis, Goiás

Praia de Caravelas, Bahia, 1991

Vendedor de sonhos, Praia de Piatá, Bahia, 1980

Carnaval, Salvador, BA, c. 2003. 

Noiva na favela de Alagados, Salvador, BA, 2002.

Festa Bumba Meu Boi, São Luís, Maranhão, 1994

Cartola e Dona Zica

Moreira da Silva

Madame Satã

Pixinguinha, de outro ângulo

O mestre se foi

MAS O MESTRE TAMBÉM FAZIA BONITO EM DUAS CORES……

Antonio Carlos Jobim

O MESTRE SOB A LENTE DE OUTROS FOTÓGRAFOS

Foto: Lela Beltrão

Foto: Gabriel Lordello

Foto: Paty Zupo

Foto: Jair Amaral

Foto: Joédson Alves

Foto: Ana Albuquerque

Foto: Autoria não encontrada

Foto: Autoria não encontrada

Foto: Autoria não encontrada

Foto: Egberto Nogueira

Foto: Autoria não encontrada

Foto: Autoria não encontrada

WALTER FIRMO POR WALTER FIRMO

Mais 60 – Como foi o começo da sua carreira? 

  • Walter Naquele tempo não tinha faculdade de jornalismo. Então você ficava seis meses em uma redação, e o chefe, vendo a sua vivência profissional, se você era categórico ou não, ele te cortava ou jogava água na sua plantinha. E dizia: “OK, esse vai trabalhar com a gente”. E aí eu sou jornalista na minha carteira de trabalho, porque o meu viés é por meio da fotografia. É um condicionamento do jornalismo, como fotógrafo. Então eu fui repórter fotográfico, jornalista. 

Mais 60 – De que modo o senhor desenvolveu seu olhar fotográfico? 

  • Walter Eu via com 15, 16 anos, quando comecei, que no fotojornalismo faltava uma essencialidade em relação à amorosidade. Eu via o jornalismo não só como uma fábrica de tragédias. A vida era um inferno no fotojornalismo. O avião pegando fogo, o sujeito saltando do edifício em chamas, o outro correndo com um objeto perfurante atrás da sua vítima e por aí. Era só tragédia, era só fato, e eu queria alguma coisa de enternecimento, alguma coisa que dosasse, que mostrasse que a vida vale a pena ser vivida através do enfrentamento. E foi assim que me tornei fotógrafo, fotojornalista, tentando mudar essa maneira de ser, trazendo para os jornais uma espiritualidade na maneira de olhar, na maneira de sentir. 

Mais 60 – Um dos grandes preconceitos contra a pessoa que envelhece é achar que ela não tem futuro e, portanto, não tem planos para o futuro. Quais são seus projetos para o futuro? 

  • Walter Bom, além do reconhecimento, não jogue flores sobre o caixão, mas bata palmas, aplauda quem durante sua vida viveu com dignidade, respeitando o outro e fez da sua atividade profissional um buquê de rosas. Eu me qualifico dessa maneira, mas concluindo sua pergunta, eu tenho planos com 86 anos de idade. Eu quero escrever um livro sobre o que senti, sobre o que vivi nesses anos. Tenho 72 anos de carreira de jornalista. Eu tenho muita história para contar sobre mim e as pessoas com quem convivi, não só na questão da esfera política e das artes em geral. 

Mais 60 – Como é possível, na sua opinião, ter uma trajetória de 71 anos ininterruptos dentro de uma área como o fotojornalismo? 

  • Walter Você tem que sonhar, você tem que ter um entendimento de vida que vale a pena, a gente, através de um querer, de um objetivo, tenta fazer sempre mais e mais, você veio para viver não para dormir, mas para viver a essencialidade da vida em todo seu esplendor. Eu quero ainda mudar minha maneira de glorificar a fotografia depois de trabalhar com tantas pessoas, com tanta gente. Quero trabalhar mais, agora, com outra questão, outro organismo, que é a natureza. Se a sorte me favorecer e eu viver mais uns cinco anos, mudar meu modo de fotografar e ver o mundo, trabalhar com árvores, com troncos, com coisas que o mar devolve e ficam soberanas na praia, e tolhidos sem nenhuma envolvência com o movimento. Então, isso é um outro viés de ver a fotografia como arte. Eu estou tentando ver isso em versão preto & branco. Essa é uma das intenções. Vamos ver se de repente isso confabula com meu desejo e me faça viver mais. É aquilo que, respondendo ainda sua pergunta, entrando nesse túnel do tempo de querer fazer com que eu possa ser mais longevo. 

Mais 60 – O senhor sentiu o racismo quando foi trabalhar em Nova York no escritório de uma revista brasileira. Poderia nos contar o que aconteceu e como esse fato mudou seu olhar? 

  • Walter Bom, eu trabalhava para a Bloch Editora, na revista Manchete, lá em 1968. Eu trabalhei nessa editora de 1966 a 1971. Virei, assim, um caixeiro viajante, o sujeito que conhecia o Brasil através da sua profissão. E convivi com muitos artistas ligados à musicalidade, Cartola, Pixinguinha, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus e tantos outros. O Instituto Moreira Salles comprou minhas fotografias e fez uma identificação do meu trabalho através de uma exposição fantástica de 264 fotos que está rodando aí pelo Brasil. Já esteve em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, agora está em Salvador e, em 29 de junho, vai estrear em Poços de Caldas, onde começou o clã do Walter Moreira Salles. Mas [o que] você tinha me perguntado? 

Quero trabalhar mais, agora, com outra questão, outro organismo, que é a natureza. Se a sorte me favorecer e eu viver mais uns cinco anos, mudar meu modo de fotografar e ver o mundo, trabalhar com árvores, com troncos, com coisas que o mar devolve e ficam soberanas na praia, e tolhidos sem nenhuma envolvência com o movimento. 

Mais 60 – Sobre um episódio de racismo que aconteceu em sua carreira. 

  • Walter Minha mãe tinha o referencial, de Portugal, pele clara, meu pai tinha a pele escura por conta da miscigenação da pele indígena e da negritude e, dentro desse híbrido, eles se conheceram no Rio de Janeiro e fizeram essa coisinha fofa, que sempre contente viveu. Minha mãe me falou que quando ela me esperava, a vizinhança deixou de falar com ela porque ela esperava um filho de um homem negro. Qual a razão de qualificar uma pessoa pela cor da pele? E isso ficou na minha cabeça. Depois, eu nunca me senti vilipendiado dentro do meu país. Um pouco de inocência, né? Eu só fui perceber em Nova York, quando trabalhava na redação da revista Manchete. O diretor de lá, falou: “Walter, tem uma mensagem de uns colegas seus lá do Rio que não estão muito satisfeitos com sua vinda aqui”. Eu fui ver o fax, era a época do fax, tinha lá uma frase que foi mais um capítulo dentro dessa coisa de agonia em relação às pessoas e da cor da sua pele. O texto era mais ou menos assim: “Como vocês contrataram um fotógrafo tão ruim, analfabeto e negro?”. Eu levei um tapa na cara, porque não esperava isso de um colega meu. Fiquei lá mais um ano, depois voltei para o Rio, deixei meu cabelo crescer, politizei a minha fotografia de forma que dignificasse o negro, contextualizando-o numa condição quase impossível na época. As pessoas negras que fizeram este país no ombro, no calor, nas lágrimas, na dor, entende? E sendo vilipendiadas dessa forma. Então, eu comecei a traduzi-las numa forma encantada. Meus totens, pessoas amorosas, chefes de família, enfim, pessoas como todas as outras. Eles são o encantamento dentro de minha filosofia visual, porque eu sou um deles, olha aqui: pixaim, nariz chato, dizem que boca de negro carnuda é boa pra beijar, então…

Eu ando preferindo o silêncio cada vez mais, racionalizar tudo que eu fiz, é como se eu pusesse um farol alto não na frente do meu carro, mas lá atrás ((risos)), como se visualizasse meu passado. E para que isso aconteça eu preciso estar sozinho. Eu gosto muito de estar sozinho. Perdi um pouco do entusiasmo que eu tinha com as pessoas, de ser mais uma delas. Minha vida é simples.

Mais 60 – Voltando um pouco para a questão do envelhecimento, o senhor consegue enxergar de que maneira a passagem do tempo o transformou? Se mudou, o que mudou? 

  • Walter Muito mais de um ano para cá, eu vejo um sobrepeso que eu não tinha. A questão física de andar na rua por exemplo, eu já tenho que ter alguns cuidados. Eu andava todo dia uns 40 minutos. Em razão da covid, eu deixei. Perdi o entusiasmo, e quando era para andar eu já não me sentia à vontade. Não é difícil eu andar, mas sinto a minha dorsal, tenho um sobrepeso ventral, minha barriga ficou bem proeminente, embora eu tente através de dieta escolher os alimentos, mas com a idade, quem tem já oitenta e poucos anos, é difícil retroceder, mas de qualquer forma eu tento. Eu sinto, por exemplo, quando tenho que subir uma escada, pego no corrimão para evitar quedas, quando eu desço também. 

Mais 60 – Tem alguma coisa que melhorou do seu ponto de vista? 

  • Walter Sim, eu ando preferindo o silêncio cada vez mais, racionalizar tudo que eu fiz, é como se eu pusesse um farol alto não na frente do meu carro, mas lá atrás ((risos)), como se visualizasse meu passado. E para que isso aconteça eu preciso estar sozinho. Eu gosto muito de estar sozinho. Perdi um pouco do entusiasmo que eu tinha com as pessoas, de ser mais uma delas. Minha vida é simples. Minha comida é simples, meu arroz com feijão, uma saladinha, carne, mas antes, uma branquinha mineira cheirosa, transparente. Que mais? 

Mais 60 – Outro preconceito contra quem envelhece é que a vida afetiva termina. O senhor poderia nos contar como conheceu sua atual companheira? 

  • Walter Eu sou muito chorão. Eu trabalho com a emoção. Aconteceu. Há 16 anos conheci essa criatura, [mas] estamos longe. Fui fazer uma matéria, com mais de cem fotógrafos, de visualizar o país por meio dos estados e ela trabalha no Sesc, na cidade do Parnaíba, no pouco litoral do Piauí. Muito bem, eu escolhi o Pantanal, mas já tinha outro fotógrafo, e eu, “poxa, mas eu queria fazer um pouco de paisagem, mas vou ficar com a paisagem humana” e me lembrei de uma frase da revista Cruzeiro, que indagava: “O Piauí existe”? E eu com todas as andanças pelo Brasil já tinha passado pelo Piauí, sabia que existia, foi como jogar “onde você vai passar suas férias?” Tá… caiu no Piauí e eu fui para lá. E lá conheci, nessa cidade, essa moça. Eu tinha 70 anos de idade e ela tinha 39. Ela se aposenta agora no segundo trimestre. Possivelmente, quase certo, nós ficaremos juntos, três meses lá e ela três meses aqui. Mas então eu conheci essa moça. Sabe aquele filme francês onde a heroína se vestia toda de rosa, ela usava um sapato alto, e eu pensei que ali estava a minha fada e queria namorar essa moça. E aconteceu. E estamos até hoje. Eu gosto de escrever, tenho um prêmio nacional que não é de foto, é de texto, Cem Dias de Amazônia, de 1963. Isso me faz um pouco trabalhar com as palavras, escolher as palavras, é de nós, embora eu seja um fotógrafo. 

Mais 60 – O senhor se lembra das pessoas idosas da sua infância? Qual a importância delas pra você? 

  • Walter A minha avó Tereza, que me criou até os cinco anos. O casal preto e branco do subúrbio do Rio queria viver abraçado e não queria testemunha e a minha mãe me colocou para ser criado com a mãe dela, minha vó Tereza, querida. A melhor parte do frango era para mim. Ovos nevados eram para mim. Mas isso me encurralou nos meus primeiros cinco anos e eu não ia brincar com as outras crianças. Talvez eu tenha sido feito poeta nessa época também, através dessa prisão, porque eu via a vida confinada de dentro para fora. Via como prisioneiro a vida lá fora, onde acontecia, e eu não podia brincar. 

Mais 60 – E Walter, dessas pessoas idosas que você fotografou, tem alguma foto que te marcou? 

  • Walter Pixinguinha. Essa foto virou um ícone na minha vida. Todo mundo quando vê essa foto reverencia sua imagem. Uma vez eu perguntei a uma senhora em uma exposição: “Mas por que vocês adoram essa foto?”. Daí uma das senhoras falou para mim: “Ah, porque ali existe a felicidade”. 

Eu vou em alto e bom som dizer. Entre a classe social que representa os idosos, nós estamos no abandono do poder público. Abandono no sentido literal da palavra. E já, já, o Brasil será um país de envelhecimento. Eu nunca pensei nisso, mas alguma coisa terá que ser feita.

Mais 60 – Através de seu olhar tão apurado para a questão social no Brasil, como o senhor analisa o que é envelhecer hoje em nosso país, pelo que se observa nas ruas? 

  • Walter Eu vou em alto e bom som dizer. Entre a classe social que representa os idosos, nós estamos no abandono do poder público. Abandono no sentido literal da palavra. E já, já, o Brasil será um país de envelhecimento. Eu nunca pensei nisso, mas alguma coisa terá que ser feita. Eu não, mas sei que tem uma ordem de idosos como eu que não tem o que comer, que não tem onde morar, vive ao léu, ao abandono, dentro da sua família, que também não pode fazer nada por ele. Eu acho que devia ter procedimento correto de quem faz e de quem manda nesse país de melhorar a vida deles. 

Mais 60 – As pessoas falam que o senhor é o mestre da cor na fotografia. Conte um pouco para a gente sobre isso. Você trabalha conscientemente com a cor? 

  • Walter Eu comecei no preto & branco como legítima defesa, naquela época de aprender fotografia não tinha cor com toda essa euforia. Só depois, com minha personalidade, percebi, uns cinco anos, uns dez anos depois, através de um americano chamado David Drew Zingg1, ele está sepultado aí em São Paulo, ele se apaixonou pela luz solar tropical e vi nas fotos dele uma força invulgar em relação à vida, à constituição filosofal do poder de ver a natureza que eu não via em outras populações do país que não viam o sol. Tanto quanto a linguagem preta & branca, são poderosas nas questões ambientais. Por que virei um colorista? Porque eu sou um apaixonado pela cor e a paixão se regula ou se desregula na intensidade, na força da paixão, na cor. E a cor tem um semblante para mim. É um tal de respostas dessas atitudes, onde não se pensa muito, mas se sente. Já no preto & branco, que gosto de fazer também, eu procuro vestir outras roupagens. 

Mais 60 – O senhor tem alguma mensagem que gostaria de passar para as outras gerações? As que estão vindo depois da sua? 

  • Walter Eu tenho uma mensagem que é minha, não sei se eles vão adquirir esse contexto, porque tudo depende da maneira de ser de cada um, né. Por exemplo, da maneira que sou, tranquilo, eu sublimo, procuro sublimar tudo, uma façanha existencial, por que nós viemos, o que nós viemos fazer aqui? Eu acho que tentar um entendimento com o outro, construindo paz, exaltando uma filosofia para o bem-estar é a principal função de um existir. Penso sempre que a felicidade reside no entendimento, numa fração em que os poderes são equânimes, onde a balança não pende para nenhum dos lados, mas sim por uma razão filosofal, onde o sol nasce para todos, o beber de uma água também, e isso nos alimenta de uma forma universal. Eu nunca tive esses poderes e quereres, só quero ser, só, e viver na minha plenitude de entendimento com os outros. Mas sem nenhuma filosofia, acho que [isso] é estar com Deus. E é uma maneira de se contemplar, de nos contemplar no outro. 

Fonte: https://www.sescsp.org.br/editorial/entrevista-com-walter-firmo/

Revista Mais 60 (inicialmente chamada A Terceira Idade: Estudos sobre Envelhecimento) é uma publicação multidisciplinar, editada desde 1988 pelo Sesc São Paulo, de periodicidade quadrimestral, e dirigida aos profissionais que atuam na área do envelhecimento. Tem como objetivo estimular a reflexão e a produção intelectual no campo da Gerontologia; seu propósito é publicar artigos técnicos e científicos nessa área, abordando os diversos aspectos da velhice (físico, psíquico, social, cultural, econômico etc.) e do processo de envelhecimento.

Fonte: https://www.sescsp.org.br/editorial/entrevista-com-walter-firmo/

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