Nº 009

EDITORIAL

Helene Bertha Amalie “Leni” Riefenstahl (1902-2003) mais conhecida como “a cineasta de Hitler”, é uma das personalidades mais fascinantes e controversas do século XX. Dona de um enorme talento e de uma ambição ainda maior, exemplo de como as fronteiras – por vezes tênues – dividem a arte e a beleza da verdade e da humanidade.

Dois dos filmes de Riefenstahl, “Olympia” e “Triunfo da Vontade”, são universalmente considerados como os maiores e mais inovadores documentários jamais realizados, mas são também glorificações insidiosas de Adolf Hitler e do Terceiro Reich.

Sua trajetória nos leva a questionar os limites da arte e a impossibilidade da mesma existir por si, isenta de responsabilidade por seu uso. Leni sempre defendeu suas produções para o Terceiro Reich como exercícios estéticos e narrativas visuais, nada além disso, assumindo-se como artista apolítica e autônoma. Fato é que ao fim da Segunda Grande Guerra com a derrota alemã, Leni foi presa por quatro anos num campo francês. Iniciava sua batalha até a morte para negar qualquer simpatia política pelo regime nazista e qualquer conhecimento do Holocausto. Em 1949 o tribunal militar gaulês a considerou “livre de incriminação política”.

A escritora e ativista norte-americana Susan Sontag discordou desta autodenominação de Leni e do veredito do tribunal que a julgou tendo escrito em seu ensaio “Fascinante Fascismo”: “A atual desnazificação e defesa de Riefenstahl como sacerdotisa da beleza — como diretora de cinema e, agora, como fotógrafa — não é muito alvissareira para a perspicácia dos peritos em detectar os anseios fascistas em nosso meio (…). Em algum lugar, é claro, todos sabem que algo mais do que a beleza está em jogo numa arte como a de Riefenstahl”.

Nas décadas seguintes, Riefenstahl buscou reinventar-se como fotógrafa, em livros sobre a tribo nuba no Sudão. Em 1987, registrou sua versão negacionista num alentado livro de memórias. Colecionou ainda, por três décadas, filmagens subaquáticas para lançar no ano de seu centenário, “Impressões Submarinas” (2002).

A despeito de sua intecionalidade e de seu envolvimento com a Alemanha de Hitler Leni Riefenstahl foi uma pioneira de um estilo de filmagem e fotografia que hoje é seguido por muitos publicitários. Suas idéias à época completamente inovadoras influenciaram e ainda influenciam gerações de cineastas. Que a história a julgue.

Leni Riefenstahl celebrou seu 101.º aniversário em um hotel em Feldafing, perto da sua casa e sua saúde se deteriorou rapidamente depois dessa data. Morreu enquanto dormia em 8 de setembro de 2003, em sua casa em Pöcking, na Alemanha, aos 101 anos. Em seu obituário, foi dito que Leni foi a última figura famosa da era nazista na Alemanha a morrer. Ela foi sepultada no Waldfriedhof de Munique, Baviera, na Alemanha.

A FOTOGRAFIA DO TRIUNFO DA VONTADE

Na década de 1930 o cinema alemão gozava de imagem como um dos mais importantes, basicamente ficando atrás apenas de Hollywood (EUA), mas acabou caminhando para uma vertente propagandista com o Partido Nazista no poder. O ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, não se utilizou apenas da sétima arte para propagar a ideologia. A rádio, o teatro e a música também foram explorados para disseminar os ideais.

Leni usa o avião de Hitler sobrevoando a cidade milenar de Nuremberg para representar a águia, símbolo com forte significado do que é “santo”. Durante 2 minutos e 29 segundos, entre o minuto 3 até 5 minutos e 29 segundos, se vê a aeronave e também a sombra do avião do Führer sobre a cidade, que representa a “chegada do salvador”. Pode-se considerar o uso da águia como mensagem ideológica. Sobre esse símbolo e sua importância, o professor e doutor Sílvio Henrique Vieira Barbosa lembra: “O formato do avião lembra a sombra de um grande pássaro, a águia, o símbolo de civilizações, como a Asteca e a Romana, e animal que representa em diferentes culturas o Ser Divino, porque pode voar junto ao sol, e que agora é adotado como símbolo, ao lado da cruz gamada, a suástica do nazismo”.

Desde sua sequência inicial extática, O Triunfo da Vontade se move para o centro dos eventos do Congresso em cena após cena — encenada para a câmera — de comícios, discursos de Hitler e outros líderes importantes do Partido Nazista, e massas de trabalhadores e soldados em pé ou marchando para a revista de Hitler, enquanto multidões de espectadores arianos aplaudem e saúdam. Riefenstahl habilmente filmou e editou suas filmagens para embaralhar a perspectiva do espectador : ela fez as multidões parecerem maiores, os espaços parecerem mais vastos e complexos, e o próprio tempo parecer alternadamente alongado ou comprimido. Tomadas extremas de ângulos altos e baixos de Hitler proferindo seus discursos histriônicos o posicionam como mestre de um mundo de temas impecavelmente ordenados. Suásticas e outras iconografias nazistas preenchem quase todas as cenas. O efeito cumulativo é uma sensação de invencibilidade dos nazistas e da inevitabilidade de que eles reconstruam a Alemanha à sua imagem.

A FOTOGRAFIA DE OLYMPIA

Muitas técnicas avançadas de cinema, que mais tarde se tornaram padrões da indústria, mas que foram inovadoras na época, foram empregadas, incluindo ângulos de câmera incomuns, cortes rápidos , close-ups extremos e colocação de trilhos de tomada de rastreamento dentro das arquibancadas . Embora restrita a seis posições de câmera no campo do estádio, Riefenstahl instalou câmeras em tantos outros lugares quanto pôde, incluindo nas arquibancadas. Ela anexou câmeras automáticas a balões, incluindo instruções para devolver o filme a ela, e também colocou câmeras automáticas em barcos durante os treinos. A fotografia amadora foi usada para complementar a dos profissionais ao longo das corridas. Talvez a maior inovação vista em Olympia tenha sido o uso de uma câmera subaquática. A câmera seguia os mergulhadores pelo ar e, assim que eles atingiam a água, o cinegrafista mergulhava com eles, o tempo todo mudando o foco e a abertura. 

0 PÓS GUERRA E A FOTOGRAFIA NO SUDÃO

Após o processo em que foi absolvida da acusação de ser nazista, Leni Riefenstahl decidiu trocar as filmadoras por câmaras fotográficas e viajou para o Sudão, para fotografar a tribo Nuba.

Chegou ao Sudão em 1962 sendo a primeira mulher branca a receber permissão do governo sudanês para estudar os nubas. Leni viveu com eles até 1969, nos vales do centro do país.

Os nubas são um povo acostumado com a adversidade e tem uma história marcada por fome, guerras e isolamento.

No Sudão, o maior país africano, os nubas têm uma tradição muito distinta de boa parte do país, especialmente da maioria muçulmana. Eles são pagãos, permitem o adultério e têm um famoso gosto por bebidas alcoólicas.

O material que ela produziu nesse período, quando viveu em uma tribo africana, é tido pelos críticos como o ensaio fotográfico mais importante de sua carreira.

O resultado do trabalho de Leni na região foi transformado no livro Die Nuba.

LENI REIFENSTAHL POR DETRÁS DAS CÂMERAS

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